Connecting the Dots com Cebaldo Inawinapi

Encontrámo-nos com o escritor, poeta e antropólogo Guna para uma fascinante conversa sobre narrativas circulares, estratégias para conferir novas vidas a contos ancestrais e a forma como o povo Guna tem preservado a sua autonomia e independência.

Cebaldo Inawinapi nasceu em Usdup, uma ilha do arquipélago de Guna Yala, no Panamá. Quando nasceu, o pai plantou a placenta e o cordão umbilical na selva que fica em frente à ilha. Desse ritual nasceu também uma árvore.

Em 1979 Cebaldo partiu para a União Soviética, onde estudou arqueologia. Foi aí que conheceu uma portuguesa que se viria a tornar sua mulher. Em 1987 mudaram-se para Portugal. Hoje é antropólogo, escritor, poeta e investigador na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Escreveu “Mi primer árbol”, um livro bilingue em guna e espanhol sobre esse primeiro ritual: quando nasce uma criança Guna, plantam o cordão umbilical e também uma árvore. Foi actor no filme “Panquiaco”, onde interpreta os próprios conflitos de pertença e retorno. Foi o curador de uma exposição na Casa da América Latina sobre “molas”, as telas que as mulheres Guna fazem e que contam histórias, profecias e sonhos.

Falámos com Cebaldo no festival FOLIO, em Óbidos.

Siga o trabalho de Cebaldo através do seu website oficial e conta de Instagram.

Veja a versão em vídeo (legendas em português disponíveis) em baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast ou para ler a versão escrita.

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO

31739968_437210840054743_8295165579111694336_n

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

NASCER, VOLTAR, ESCREVER | A CIRCULARIDADE DAS NARRATIVAS GUNA

A forma como tento explicar a minha vida, a história de nascer e de des-nascer, remete para a forma como os Guna contam as histórias, que é circular. Não há uma coisa de subir, de coisas a ascenderem. Tudo circula.

Por isso é que entre os Guna, quando falece alguém, o canto central é de alguém que vai agradecer para voltar de novo à terra. Agradecer pelos alimentos, pela vida. É um processo que está a circular.

Além disso, desde o século XVII, mais ou menos, os Guna começaram a ter alianças com os piratas, os bucaneiros, para lutar contra o império espanhol, e começaram a navegar. Ou seja, sempre tiveram essa vida de migrantes. Navegar para aprender, ver, e depois voltar. Porque o processo de voltar, de regressar, também é muito complexo e muito metafórico.

Participei no filme «Panquiaco», que esteve no Festival de Roterdão e que fala um pouco sobre isso. Sobre o tal Guna que vive há muitos anos na Europa e que quer voltar. E o xamã diz-lhe: “A única forma de voltar é morrer”.

Muita gente faz a clássica pergunta: “Porque é falas assim, e dizes que a cultura é uma coisa fantástica, mas continuas em Portugal? Qual é a razão?” Os Guna têm uma tradição relacionado com os casamentos. Quando um homem se casa, tem de ir viver para a casa da mulher. Então, para mim, a minha casa é onde está Alice, a minha companheira. Estamos ali juntos.

Muitos colegas mais novos, há muitos anos, faziam essa crítica: «Cebaldo, falas e não sei que mais, mas continuas na Europa. Tens de vir para cá». E então, um chefe, o poeta maior, disse: «Não, o Cebaldo cumpriu, porque foi viver para a casa da namorada, da mulher”.

Mas também tenho muitos projetos no Panamá que me têm permitido esse tal regresso. Todos os meus projetos antropológicos, e agora o cinema que tenho feito, têm a ver com o mundo Guna, de uma ou outra forma. Então, escrever é também uma forma de voltar. Eu faço crónicas, escrevo poemas, e é como regressar.

mi-primer-arbol-book-cover.jpg

Capa do livro “Mi Primer Árbol”, de Cebaldo Inawinapi

MI PRIMER ÁRBOL | RITUAL, RELATO, LIVRO, ANIMAÇÃO

Não é muito grande, o livro, mas tem essa força de conseguir contar histórias que são o dia-a-dia da comunidade Guna. Como a questão do cordão umbilical e da placenta.

Começou por ser uma homenagem aos meus pais. À minha mãe e ao meu pai, que foram professores e já não estão vivos. Quis contar essa história. Mas também é sobre a ilustração. Este livro tem muitas ilustrações, feitas por uma afro-panamenha e por um pintor Guna.

E além disso, quis que fosse bilingue. Foi um desafio para nós. Mesmo aqueles que, como eu, defendem a cultura Guna, são Guna, sabem que é complicado escrever na língua Guna, passá-la à escrita. O Guna é mais oral. Agora, tem sido passado à escrita nalguns. Mas eu também continuo a defender o Guna oral. E é por isso que agora uma das ideias em torno deste livro, é passá-lo para uma animação, onde a palavra e a imagem circulem também.

Estamos a trabalhar com Duiren, um jovem cineasta Guna, cujo filme “Bila Burba” foi apresentado no festival de Amsterdão. O Duiren é o realizador, e todos participamos e colaboramos com o filme. Com ele, e com uma parente Wayuu da Colômbia, que também é cineasta, estamos a preparar a animação. A animação não vai ser só sobre o livro, mistura também ideias de outras comunidades indígenas.

Screenshot

Ilustração retirada de “Mi Primer Árbol”, da autoria de Marta Noemi Noriega

Por exemplo, uma das coisas que queremos apresentar na animação é um texto meu que não entrou no livro. Sobre uma árvore que sonha ser cayuco, barco, piroga. Porque as árvores têm essa capacidade para sonhar. Então, une essa história das árvores com a história do Cebaldo, do Cebaldito, que vai crescendo e que sente que não pode ser médico, sente que não vai ser um grande caçador, e que quer ser escritor. Ou seja, junta a questão ocidental daquele que escreve, ao universo indígena, natural, através do cordão umbilical, da árvore que vai nascer.

Penso que os filmes, tal como a literatura, também têm essa função, de despertar. Agora, com este mundo tão complexo, com guerras e tudo isto, é uma forma de apresentar propostas, de mostrar que há possibilidade de construir um mundo mais solidário. Como acontece, não só entre os Guna, mas noutras comunidades que praticam isso.

Agora estamos a ver se o Ministério da Educação do Panamá está interessado em reeditá-lo, para que o possam ler os não-Guna, também. E uma coisa linda é que a introdução foi contada por um chefe Guna, o meu tio, que faleceu cerca de quatro ou cinco meses depois de ter contado a versão dele como introdução. Agora sonho fazer uma versão em Guna-português, uma vez que já existe em Guna-espanhol.

472082937_1142701677863228_7742379334709694970_n

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

AUTONOMIA E IDENTIDADE GUNA | UMA SOCIEDADE MATRIARCAL VIVA

Com 10 anos, saí de casa, porque fui estudar para a Cidade [do Panamá]. E para mim, já aí começou o impacto. Eu tive uma vantagem, porque os meus pais falavam as duas línguas. E eu desde criança dominava o Guna e o espanhol. O que não é o caso da grande maioria. Não senti um choque profundo. Mas via diferenças. Desde brincar, comer e relativamente à importância das mulheres.

A mãe da minha mãe é a figura central. Por isso dizemos que é uma matriarca local. É quem define os papéis. E, quando há uma disputa, do que seja, é ela que vai ter a palavra final. E as cerimónias de iniciação são todas femininas. Os homens têm de praticar a caça, estudar, mas não têm uma cerimónia como têm as mulheres. Por exemplo, o corte de cabelo. Receber o primeiro nome. O mesmo no casamento, onde a mulher ocupa o lugar central. E ver, depois, uma cultura onde o homem é o dono e senhor, não é fácil.

Hoje, quando apresentei o livro, contei o que uma das minhas avós me dizia: “Quando fores para [a Cidade do] Panamá viver, atenção que não podes dar a volta às ilhas…”. Nós, à tarde, por esta hora, com os amigos ou amigas, caminhávamos… É uma ilha pequenina. E dávamos a mão. E com a mão, íamos caminhando. E ela disse: “[Na Cidade do] Panamá, não se pode fazer isso. Com o teu amigo, não podes andar pela rua de mão dada”. Mas ela não dizia porquê. Aprendi à conta de golpes psicológicos, como se diz. Que na cidade não podes andar de mão dada com um amigo, porque é outra forma de… Enfim, tudo isso.

Cebaldo-y-su-madre.jpeg

Cebaldo com a sua mãe. Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Até no riso senti a diferença. Os Guna riem-se em voz alta, sobretudo as mulheres, com gargalhadas. Até essas coisas, que parecem simples, têm a ver com a forma específica como vive uma comunidade destas, onde o riso é uma terapia. Então, tive de aprender que havia outros mundos onde isso não era bem visto.

O mesmo em relação à roupa, aos trajes. A mulher Guna não usa parte de cima. Eu cresci a ver os seios das minhas irmãs, de parentes. E, de repente, entrei num mundo onde isso já é algo que uma pessoa tem de esconder, e que se torna tabu. Mas também se torna uma tentação. Então, são coisas que uma pessoa vai experimentando e aprendendo.

E com a língua, igual. Pois tive que falar espanhol. E, nisso, a mulher Guna tem um papel fundamental a partir dos anos 60, quando começaram a migrar mais mulheres. Os homens migravam e tentavam falar castelhano, espanhol. Porquê? Para não serem discriminados. A mulher Guna, quando chega, fala Guna, mesmo que saiba falar espanhol. E isso foi tão forte, tão potente, que muitas pessoas começaram a perceber a importância da língua.

Hoje, no Panamá, as línguas indígenas são oficiais. As línguas oficiais do Panamá são o castelhano e as línguas indígenas. Isso é o que está no papel, na Constituição. Agora, na prática, é uma questão muito complexa. Então, isso foram lutas da mulher Guna. A indumentária e a língua.

Luciamor2.jpg

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Nós temos uma migração altíssima, também. Quase 40% da comunidade Guna, se calhar até mais, já está nos centros urbanos. Só que a forma como se organiza a comunidade Guna, e a forma como defende a sua autonomia, teve um efeito muito interessante. Em relação à língua, como referi. Na cidade escuta-se o Guna como se fosse uma língua “normal”. Foi a força das mulheres que foi fundamental para que isso aconteça.

Os Guna lutam já desde 1871, quando o Panamá ainda pertencia à Colômbia. No século XX, o Panamá conseguiu a independência da Colômbia, devido à questão do Canal do Panamá. E passados alguns anos, acontece o levantamento Guna, porque muitos países da América Latina avançaram com políticas para acabar com a língua indígena, com os trajes, políticas para que os índios fossem «civilizados», fossem católicos, falassem espanhol, aceitassem a propriedade privada, tudo isso. 

E os Guna tomaram armas.

Foi numa terça-feira de carnaval, em 1925. Entre 20 e 25 de fevereiro. E foi o primeiro passo para que o Panamá se sentasse a negociar com os Guna. Os americanos também não queriam chatices perto do Canal, que tinha sido construído há apenas 11 ou 12 anos. E isso permite aos Guna começarem a negociar, pouco a pouco. Porque, na realidade, nós nunca quisemos a guerra. Ninguém a quer, toda a gente quer viver em paz. Mas fomos obrigados, praticamente, a isso. E depois, por volta de 1950, 1953, os Guna conseguiram ver aprovada uma legislação forte. 



O Panamá queria invadir, mas já era difícil, ou impossível mesmo, porque a comunidade Guna estava bem organizada. São 52 comunidades nas 400 ilhas. 52 comunidades habitadas pelo povo Guna, onde se pratica a “democracia versão Guna”, como é chamada. Uma comunidade de 200 tem um congresso local. De mil, também tem o seu congresso local. Que se reúne todos os dias, sem excepção. Não só para conversar sobre temas da actualidade, mas também para praticar os cantos tradicionais, e para debater questões políticas.

amigos

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Qualquer candidato ao cargo de coordenador ou chefe (designado como «Saila» entre os Guna) tem de conhecer toda a história oral, e tem de saber contá-la e cantá-la.

E além disso, pode ser um médico, pode ser um caçador, o que seja, mas tem de ser a pessoa mais solidária da aldeia. E há outro critério fundamental. É a única pessoa da aldeia que não pode ter privilégios. Porque a sua tarefa principal é servir a comunidade. Esse é o sistema clássico Guna.

Há uma outra coisa interessante: antigamente eram as mulheres que tinham essa função na floresta. E depois passámos da floresta para as ilhas, por causa da pressão da colónia, da conquista. Na floresta, a mulher tinha o controlo da agricultura. É daí que vem a força das mulheres. Que se foi perdendo, com a passagem para as ilhas, mas que agora está a ser recuperada. Porque, economicamente, as mulheres têm mais força, por causa dos tecidos que vendem.

E têm também força ao nível da produção. O turismo já chegou, e os turistas compram muito artesanato. Quase 70% ou 80% da artesania é feita por mulheres. Então, hoje os homens acabam por ter de pedir emprestado.

490272517_1226763329457062_4607927605798644921_n

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Share

Connecting the Dots com Cebaldo Inawinapi

Encontrámo-nos com o escritor, poeta e antropólogo Guna para uma fascinante conversa sobre narrativas circulares, estratégias para conferir novas vidas a contos ancestrais e a forma como o povo Guna tem preservado a sua autonomia e independência.

Cebaldo Inawinapi nasceu em Usdup, uma ilha do arquipélago de Guna Yala, no Panamá. Quando nasceu, o pai plantou a placenta e o cordão umbilical na selva que fica em frente à ilha. Desse ritual nasceu também uma árvore.

Em 1979 Cebaldo partiu para a União Soviética, onde estudou arqueologia. Foi aí que conheceu uma portuguesa que se viria a tornar sua mulher. Em 1987 mudaram-se para Portugal. Hoje é antropólogo, escritor, poeta e investigador na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro.

Escreveu “Mi primer árbol”, um livro bilingue em guna e espanhol sobre esse primeiro ritual: quando nasce uma criança Guna, plantam o cordão umbilical e também uma árvore. Foi actor no filme “Panquiaco”, onde interpreta os próprios conflitos de pertença e retorno. Foi o curador de uma exposição na Casa da América Latina sobre “molas”, as telas que as mulheres Guna fazem e que contam histórias, profecias e sonhos.

Falámos com Cebaldo no festival FOLIO, em Óbidos.

Siga o trabalho de Cebaldo através do seu website oficial e conta de Instagram.

Veja a versão em vídeo (legendas em português disponíveis) em baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast ou para ler a versão escrita.

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO

31739968_437210840054743_8295165579111694336_n

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

NASCER, VOLTAR, ESCREVER | A CIRCULARIDADE DAS NARRATIVAS GUNA

A forma como tento explicar a minha vida, a história de nascer e de des-nascer, remete para a forma como os Guna contam as histórias, que é circular. Não há uma coisa de subir, de coisas a ascenderem. Tudo circula.

Por isso é que entre os Guna, quando falece alguém, o canto central é de alguém que vai agradecer para voltar de novo à terra. Agradecer pelos alimentos, pela vida. É um processo que está a circular.

Além disso, desde o século XVII, mais ou menos, os Guna começaram a ter alianças com os piratas, os bucaneiros, para lutar contra o império espanhol, e começaram a navegar. Ou seja, sempre tiveram essa vida de migrantes. Navegar para aprender, ver, e depois voltar. Porque o processo de voltar, de regressar, também é muito complexo e muito metafórico.

Participei no filme «Panquiaco», que esteve no Festival de Roterdão e que fala um pouco sobre isso. Sobre o tal Guna que vive há muitos anos na Europa e que quer voltar. E o xamã diz-lhe: “A única forma de voltar é morrer”.

Muita gente faz a clássica pergunta: “Porque é falas assim, e dizes que a cultura é uma coisa fantástica, mas continuas em Portugal? Qual é a razão?” Os Guna têm uma tradição relacionado com os casamentos. Quando um homem se casa, tem de ir viver para a casa da mulher. Então, para mim, a minha casa é onde está Alice, a minha companheira. Estamos ali juntos.

Muitos colegas mais novos, há muitos anos, faziam essa crítica: «Cebaldo, falas e não sei que mais, mas continuas na Europa. Tens de vir para cá». E então, um chefe, o poeta maior, disse: «Não, o Cebaldo cumpriu, porque foi viver para a casa da namorada, da mulher”.

Mas também tenho muitos projetos no Panamá que me têm permitido esse tal regresso. Todos os meus projetos antropológicos, e agora o cinema que tenho feito, têm a ver com o mundo Guna, de uma ou outra forma. Então, escrever é também uma forma de voltar. Eu faço crónicas, escrevo poemas, e é como regressar.

mi-primer-arbol-book-cover.jpg

Capa do livro “Mi Primer Árbol”, de Cebaldo Inawinapi

MI PRIMER ÁRBOL | RITUAL, RELATO, LIVRO, ANIMAÇÃO

Não é muito grande, o livro, mas tem essa força de conseguir contar histórias que são o dia-a-dia da comunidade Guna. Como a questão do cordão umbilical e da placenta.

Começou por ser uma homenagem aos meus pais. À minha mãe e ao meu pai, que foram professores e já não estão vivos. Quis contar essa história. Mas também é sobre a ilustração. Este livro tem muitas ilustrações, feitas por uma afro-panamenha e por um pintor Guna.

E além disso, quis que fosse bilingue. Foi um desafio para nós. Mesmo aqueles que, como eu, defendem a cultura Guna, são Guna, sabem que é complicado escrever na língua Guna, passá-la à escrita. O Guna é mais oral. Agora, tem sido passado à escrita nalguns. Mas eu também continuo a defender o Guna oral. E é por isso que agora uma das ideias em torno deste livro, é passá-lo para uma animação, onde a palavra e a imagem circulem também.

Estamos a trabalhar com Duiren, um jovem cineasta Guna, cujo filme “Bila Burba” foi apresentado no festival de Amsterdão. O Duiren é o realizador, e todos participamos e colaboramos com o filme. Com ele, e com uma parente Wayuu da Colômbia, que também é cineasta, estamos a preparar a animação. A animação não vai ser só sobre o livro, mistura também ideias de outras comunidades indígenas.

Screenshot

Ilustração retirada de “Mi Primer Árbol”, da autoria de Marta Noemi Noriega

Por exemplo, uma das coisas que queremos apresentar na animação é um texto meu que não entrou no livro. Sobre uma árvore que sonha ser cayuco, barco, piroga. Porque as árvores têm essa capacidade para sonhar. Então, une essa história das árvores com a história do Cebaldo, do Cebaldito, que vai crescendo e que sente que não pode ser médico, sente que não vai ser um grande caçador, e que quer ser escritor. Ou seja, junta a questão ocidental daquele que escreve, ao universo indígena, natural, através do cordão umbilical, da árvore que vai nascer.

Penso que os filmes, tal como a literatura, também têm essa função, de despertar. Agora, com este mundo tão complexo, com guerras e tudo isto, é uma forma de apresentar propostas, de mostrar que há possibilidade de construir um mundo mais solidário. Como acontece, não só entre os Guna, mas noutras comunidades que praticam isso.

Agora estamos a ver se o Ministério da Educação do Panamá está interessado em reeditá-lo, para que o possam ler os não-Guna, também. E uma coisa linda é que a introdução foi contada por um chefe Guna, o meu tio, que faleceu cerca de quatro ou cinco meses depois de ter contado a versão dele como introdução. Agora sonho fazer uma versão em Guna-português, uma vez que já existe em Guna-espanhol.

472082937_1142701677863228_7742379334709694970_n

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

AUTONOMIA E IDENTIDADE GUNA | UMA SOCIEDADE MATRIARCAL VIVA

Com 10 anos, saí de casa, porque fui estudar para a Cidade [do Panamá]. E para mim, já aí começou o impacto. Eu tive uma vantagem, porque os meus pais falavam as duas línguas. E eu desde criança dominava o Guna e o espanhol. O que não é o caso da grande maioria. Não senti um choque profundo. Mas via diferenças. Desde brincar, comer e relativamente à importância das mulheres.

A mãe da minha mãe é a figura central. Por isso dizemos que é uma matriarca local. É quem define os papéis. E, quando há uma disputa, do que seja, é ela que vai ter a palavra final. E as cerimónias de iniciação são todas femininas. Os homens têm de praticar a caça, estudar, mas não têm uma cerimónia como têm as mulheres. Por exemplo, o corte de cabelo. Receber o primeiro nome. O mesmo no casamento, onde a mulher ocupa o lugar central. E ver, depois, uma cultura onde o homem é o dono e senhor, não é fácil.

Hoje, quando apresentei o livro, contei o que uma das minhas avós me dizia: “Quando fores para [a Cidade do] Panamá viver, atenção que não podes dar a volta às ilhas…”. Nós, à tarde, por esta hora, com os amigos ou amigas, caminhávamos… É uma ilha pequenina. E dávamos a mão. E com a mão, íamos caminhando. E ela disse: “[Na Cidade do] Panamá, não se pode fazer isso. Com o teu amigo, não podes andar pela rua de mão dada”. Mas ela não dizia porquê. Aprendi à conta de golpes psicológicos, como se diz. Que na cidade não podes andar de mão dada com um amigo, porque é outra forma de… Enfim, tudo isso.

Cebaldo-y-su-madre.jpeg

Cebaldo com a sua mãe. Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Até no riso senti a diferença. Os Guna riem-se em voz alta, sobretudo as mulheres, com gargalhadas. Até essas coisas, que parecem simples, têm a ver com a forma específica como vive uma comunidade destas, onde o riso é uma terapia. Então, tive de aprender que havia outros mundos onde isso não era bem visto.

O mesmo em relação à roupa, aos trajes. A mulher Guna não usa parte de cima. Eu cresci a ver os seios das minhas irmãs, de parentes. E, de repente, entrei num mundo onde isso já é algo que uma pessoa tem de esconder, e que se torna tabu. Mas também se torna uma tentação. Então, são coisas que uma pessoa vai experimentando e aprendendo.

E com a língua, igual. Pois tive que falar espanhol. E, nisso, a mulher Guna tem um papel fundamental a partir dos anos 60, quando começaram a migrar mais mulheres. Os homens migravam e tentavam falar castelhano, espanhol. Porquê? Para não serem discriminados. A mulher Guna, quando chega, fala Guna, mesmo que saiba falar espanhol. E isso foi tão forte, tão potente, que muitas pessoas começaram a perceber a importância da língua.

Hoje, no Panamá, as línguas indígenas são oficiais. As línguas oficiais do Panamá são o castelhano e as línguas indígenas. Isso é o que está no papel, na Constituição. Agora, na prática, é uma questão muito complexa. Então, isso foram lutas da mulher Guna. A indumentária e a língua.

Luciamor2.jpg

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Nós temos uma migração altíssima, também. Quase 40% da comunidade Guna, se calhar até mais, já está nos centros urbanos. Só que a forma como se organiza a comunidade Guna, e a forma como defende a sua autonomia, teve um efeito muito interessante. Em relação à língua, como referi. Na cidade escuta-se o Guna como se fosse uma língua “normal”. Foi a força das mulheres que foi fundamental para que isso aconteça.

Os Guna lutam já desde 1871, quando o Panamá ainda pertencia à Colômbia. No século XX, o Panamá conseguiu a independência da Colômbia, devido à questão do Canal do Panamá. E passados alguns anos, acontece o levantamento Guna, porque muitos países da América Latina avançaram com políticas para acabar com a língua indígena, com os trajes, políticas para que os índios fossem «civilizados», fossem católicos, falassem espanhol, aceitassem a propriedade privada, tudo isso. 

E os Guna tomaram armas.

Foi numa terça-feira de carnaval, em 1925. Entre 20 e 25 de fevereiro. E foi o primeiro passo para que o Panamá se sentasse a negociar com os Guna. Os americanos também não queriam chatices perto do Canal, que tinha sido construído há apenas 11 ou 12 anos. E isso permite aos Guna começarem a negociar, pouco a pouco. Porque, na realidade, nós nunca quisemos a guerra. Ninguém a quer, toda a gente quer viver em paz. Mas fomos obrigados, praticamente, a isso. E depois, por volta de 1950, 1953, os Guna conseguiram ver aprovada uma legislação forte. 



O Panamá queria invadir, mas já era difícil, ou impossível mesmo, porque a comunidade Guna estava bem organizada. São 52 comunidades nas 400 ilhas. 52 comunidades habitadas pelo povo Guna, onde se pratica a “democracia versão Guna”, como é chamada. Uma comunidade de 200 tem um congresso local. De mil, também tem o seu congresso local. Que se reúne todos os dias, sem excepção. Não só para conversar sobre temas da actualidade, mas também para praticar os cantos tradicionais, e para debater questões políticas.

amigos

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Qualquer candidato ao cargo de coordenador ou chefe (designado como «Saila» entre os Guna) tem de conhecer toda a história oral, e tem de saber contá-la e cantá-la.

E além disso, pode ser um médico, pode ser um caçador, o que seja, mas tem de ser a pessoa mais solidária da aldeia. E há outro critério fundamental. É a única pessoa da aldeia que não pode ter privilégios. Porque a sua tarefa principal é servir a comunidade. Esse é o sistema clássico Guna.

Há uma outra coisa interessante: antigamente eram as mulheres que tinham essa função na floresta. E depois passámos da floresta para as ilhas, por causa da pressão da colónia, da conquista. Na floresta, a mulher tinha o controlo da agricultura. É daí que vem a força das mulheres. Que se foi perdendo, com a passagem para as ilhas, mas que agora está a ser recuperada. Porque, economicamente, as mulheres têm mais força, por causa dos tecidos que vendem.

E têm também força ao nível da produção. O turismo já chegou, e os turistas compram muito artesanato. Quase 70% ou 80% da artesania é feita por mulheres. Então, hoje os homens acabam por ter de pedir emprestado.

490272517_1226763329457062_4607927605798644921_n

Imagem dos arquivos pessoais de Cebaldo Inawinapi

Share