Connecting the Dots com Alex Ahimbisibwe

Uma conversa com o diretor da Batwa Indigenous Development Organisation (BIDO) sobre como os Batwa do sudoeste do Uganda estão a reivindicar a segurança alimentar, a educação e o orgulho cultural nos seus próprios termos.

Os Batwa são um povo indígena da região dos Grandes Lagos Africanos. Durante milhares de anos, os Batwa do sudoeste do Uganda viveram como caçadores-recoletores na Floresta Impenetrável de Bwindi. No início da década de 1990, devido à criação de um parque nacional, os Batwa foram expulsos do seu território ancestral. Sem terra, sem realojamento, estas comunidades foram empurradas para as margens da sociedade.

Neste episódio, viajamos até à aldeia de Kashija, no distrito de Kisoro, para conversar com Alex Ahimbisibwe, diretor da Batwa Indigenous Development Organisation, ou BIDO. Fundada em 2015, a organização procura combater a marginalização dos Batwa através de projetos de desenvolvimento liderados pela própria comunidade.

A Azimuth é parceira da BIDO desde 2022. Atualmente, a nossa parceria engloba duas importantes iniciativas: um projeto agrícola que promove a segurança e soberania alimentar na comunidade, e um projeto educativo que acompanha crianças e jovens Batwa — e os seus pais — ao longo do seu percurso escolar.

Gravámos esta entrevista durante uma visita da nossa equipa a Kashija. Esperamos que seja uma oportunidade para ficar a conhecer melhor o povo Batwa e o trabalho que a BIDO está a levar a cabo no Uganda.

Veja a versão em vídeo (legendas em português disponíveis) m baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast (dobrada em português) ou para ler a versão escrita.

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO

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Comunidade Batwa da aldeia de Kashija, distrito de Kisoro, Uganda

Chamo-me Ahimbisibwe Alex e venho da comunidade Batwa de Kashija. Sou o diretor da Batwa Indigenous Development Organisation. A BIDO foi fundada em 2015.

A comunidade que servimos vive no Uganda, no distrito de Kisoro, município de Rubuguri. E está a cerca de 5, 7 quilómetros da floresta de Bwindi.

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A equipa da BIDO, da esquerda para a direita e de cima para baixo: Kate Bekuna (Secretária), Alex Ahimbisibwe (Diretor Executivo), Julius Banshekura (Coordenador de Educação), Laban Friday (Coordenador Desportivo), Ameria Nyabutono (Contabilista), Shallon Kyomugisha (Coordenadora de Saúde) e Felix Batuma (Coordenador Agrícola),

NUTRIR A COMUNIDADE | O PROJETO AGRÍCOLA DA BIDO

Para o projeto agrícola, o primeiro passo foi mobilizar a comunidade, fazer algum trabalho de sensibilização. Recebemos algum apoio, da Azimuth World Foundation, e começámos a pôr as nossas ideias em prática no terreno.

Sentimos que não só esta comunidade, como as comunidades Batwa em geral, enfrentam problemas de insegurança alimentar, e que há fome nestas comunidades. E há também desnutrição, entre a população infantil. Isto porque os Batwa costumavam caçar na floresta e já não podem fazê-lo, devido às restrições que foram impostas em parques nacionais e nas reservas de caça. É por isso que sentimos esta necessidade de encontrar para o povo Batwa uma fonte alternativa de alimentos.

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Horta familiar no povoado Batwa em Kashija

Recebemos apoio da Azimuth para viajar até ao Quénia. E o principal objetivo dessa viagem era aprender sobre transformação. Isto porque, por vezes, nos parecia que não conseguiríamos dedicar-nos à agricultura. Mas quando chegámos a Yatta, no Quénia, percebemos que há quem esteja a transformar terra árida em terra capaz de sustentar a produção alimentar.

Em certo sentido, perceberam que a terra afinal não é árida. Que talvez essa aridez estivesse na sua mentalidade. E isso, de alguma forma, inspirou-nos: eles foram capazes de transformar uma mentalidade árida, e a partir daí estabilizaram processos de irrigação do solo, conseguiram unir esforços para cavar lagoas que captassem a água da chuva. E, na verdade, isso deu-nos esperança: coisas que à partida parecem impossíveis aos nossos olhos são, na verdade, totalmente possíveis, com outra abordagem.

Houve um momento em que nos apercebemos que a nossa própria mente estava repleta de floresta. Sempre que sentíamos essa falta de alimentos, os nossos pensamentos iam para a floresta. Mas percebemos que é preciso pôr a floresta de lado, porque não nos é permitido aceder a ela. E foi então que percebemos: «Aqui somos abençoados com chuva, não somos afetados pela seca, o solo é fértil.» Portanto, tudo o que tínhamos de fazer era tirar partido destas condições. E foi aí que as coisas começaram a mudar. Foi aí que passámos a usar a terra disponível para produzir alimentos, em vez de ficarmos a pensar na floresta.

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Aweka Gerardina, agricultora Batwa da vila de Kashija

O John, que trabalha em Yatta, veio até Kashija, algum tempo depois da nossa visita ao Quénia. E a BIDO conseguiu uma nova bolsa, que permitiu organizar uma formação na área da agricultura. A comunidade adquiriu competências, ao nível da produção de adubo orgânico, por exemplo. E aprendeu sobre alguns métodos agrícolas, tais como a criação de canteiros rebaixados, a construção de hortas em covas (zai) e a criação de hortas verticais. E, aos poucos, estamos a tentar aplicar estes conhecimentos nas nossas práticas agrícolas. E conseguimos ver que as coisas estão a mudar, que a produtividade está a aumentar, ao termos adquirido este tipo de conhecimentos.

Até agora, cultivámos espécies modernas. Plantamos batata-irlandesa. Plantamos ararutas, que aqui chamamos de inhame. Plantamos batata-doce. Esses são os alimentos básicos. Depois, também plantamos basicamente legumes, como o pimento verde. Plantamos cenoura. Plantamos cebola. Plantamos espinafre.

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Jacque Macharia (Coordenadora Regional para África da Azimuth) com Alex Ahimbisibwe, da BIDO, durante a nossa visita à aldeia de Kashija

Ainda estamos a tentar perceber como podemos integrar algumas das nossas plantas indígenas nestes mesmos jardins. E alguns membros da comunidade começaram a plantar sementes de culturas indígenas, como a Etsura. Isto porque percebemos que precisamos de tentar integrar aqui o nosso sistema alimentar indígena.

A Etsura, a planta de que estava a falar, ajuda na cura de úlceras. A Endema ajuda na produção de fluidos que tornam as articulações mais flexíveis. E outras plantas, como a Entakara, ajudam na desparasitação e garantem que as crianças não são afetadas por vermes intestinais.

É algo que queremos desenvolver. Porque, sob todos os pontos de vista, a nossa cultura tem de ser respeitada, tem de ser preservada. Estamos a tentar encontrar formas de a trazer de volta às nossas vidas.

Para ser sincero, no passado não imaginávamos que seríamos capazes de plantar, de ter uma prática agrícola, de pôr comida no prato. Mas hoje em dia, está a despontar a esperança. E isto também fomenta a unidade na nossa comunidade. Trabalhamos em conjunto, aprendemos em conjunto. Para nutrir a comunidade. Quando a comunidade tem acesso a bons alimentos, não há desnutrição. Ficamos mais saudáveis. E, na verdade, conseguimos ver que as crianças já parecem mais saudáveis do que estavam antes. Nutrimos as crianças, para que possam ter uma vida melhor.

Screenshot 2026-05-29 at 13.58.38

Legumes plantados na horta comunitária do povoado Batwa em Kashija

Ao longo deste processo, um dos nossos parceiros também nos aconselhou a incluir algum tipo de atividade económica no projeto. E por isso, quando os membros da comunidade tiverem alimentos suficientes para as suas famílias, queremos que também possam vender os excedentes no mercado, tal como qualquer outra pessoa daqui. E assim também vamos fomentar esse fortalecimento económico, que apoia financeiramente os agregados familiares. As pessoas também vão precisar de roupa. Vão precisar de sabão, para a sua higiene. Talvez precisem de uma panela, de chávenas, de outros utensílios para usar em casa.

Quando és pobre, todos olham para ti como uma pessoa vulnerável e muito marginalizada. Mas quando tens autonomia, quando tens comida e és autossuficiente, quando dependes da tua própria horta, não és explorado. Por isso, criar este tipo de apoio económico e permitir que a comunidade seja autossuficiente é algo que muda até a aparência dos membros da comunidade, levando a que a comunidade deixe de ser marginalizada e passe a ser respeitada.

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Felix Batuma, coordenador agrícola da BIDO, na sua horta

NOVOS CAMINHOS PARA AS CRIANÇAS BATWA | O PROJETO EDUCATIVO DA BIDO

Pensámos em desenvolver este projeto educativo porque é através da educação que podemos adquirir os conhecimentos necessários para compreender este mundo em evolução. Os Batwa que não têm instrução, a maioria deles, têm muita dificuldade em compreender as condições em que vivem. Acabam por ser simplesmente explorados, mesmo sem se aperceberem.

Já não temos acesso à maior parte da educação informal, através da qual adquiríamos conhecimentos sobre como sobreviver na floresta. E também as condições em que vivemos estão a mudar. Na verdade, a nossa vida já mudou. Passámos da vida na floresta para a vida moderna. Por isso, precisamos de conhecimentos que nos sirvam agora, que nos permitam viver na nossa situação atual.

Outra preocupação que motivou o projeto foi que a maioria das nossas crianças Batwa, nessa altura, estava a abandonar a escola. E senti que, ao permitir que a maioria das nossas crianças saísse da escola, estávamos a deixar que perdessem algo muito importante. Acabariam por viver na pobreza e em situações de vulnerabilidade, como acontece com os Batwa que não frequentaram a escola. E foi aí que pensámos: «E se também lhes pudéssemos dar uma ajuda, enquanto organização?» Dar-lhes uma ajuda, dar-lhes um empurrão.

E então decidimos desenvolver uma proposta de projeto, para garantir que conseguimos apoiar as nossas crianças, e para que elas consigam continuar o seu percurso educativo. Agora já vejo como as crianças estão a melhorar o seu desempenho escolar. Como estão a conseguir adaptar-se à escola. Sem serem constantemente interrompidas. As crianças começam realmente a conceber o seu futuro. E é isso que lhes está a dar a motivação necessária para se manterem de pé e também para se concentrarem na escola.

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Muhwezi Laban e Tumwirigire Aphia, alunos do ensino básico apoiados pelo programa educativo da BIDO

Na verdade, vemos como os pais apreciam isto e nos dizem: «Se num futuro próximo o Alex já não puder estar no escritório, talvez eles consigam substituí-lo.» Também vêm como os jovens poderão vir a ajudar os membros da comunidade, seja desenvolvendo um projeto, seja aplicando os conhecimentos adquiridos na escola, proporcionando alternativas à situação atual dos Batwa. E, possivelmente, também poderão extender esse apoio a outras crianças Batwa.

Para ser honesto, havia alguns pais que até recentemente costumavam olhar para esta educação moderna, a educação formal, de forma negativa. Porque não fazia parte da cultura da floresta. Algumas das crianças que iam para a escola também acabavam por se afastar dos pais, porque tinham frequentado internatos longe de casa e, quando voltavam, já tinham outro nível de inteligência. Mas estes problemas também estão a ser combatidos através da mentoria que a BIDO proporciona. Orientamos as crianças, garantimos que respeitam os pais, que não se esquecem das suas origens. E também tentamos melhorar as suas vidas em casa e garantir essa integração com as suas famílias.

Sentimos que os próprios pais das crianças que estamos a apoiar também precisam de ser sensibilizados, de receber orientação, para garantir que também eles acompanham a BIDO nesta caminhada, neste apoio aos seus filhos. Assim não sentimos que estamos a fazer isto sozinhos. Sentimos que esta jornada é da BIDO e dos pais, é das crianças e dos professores. E até os pequenos negócios locais podem ter o seu papel.

É por isso que um dos nossos objetivos atualmente passa por apoiar os pais economicamente, para garantir que também eles são capazes de contribuir para o processo educativo dos seus filhos. Assim, damos-lhes pequenas bolsas para começarem projetos, e eles têm sido muito receptivos e demonstrado interesse em expandir estas iniciativas. E também vemos como hoje já estão a acompanhar o progresso dos seus filhos na escola. Alguns visitam regularmente os filhos na escola e também reunem com os professores. Isto era algo que nunca acontecia antes.

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O grupo de pais, um elemento essencial para o sucesso do projeto educativo da BIDO.

REVITALIZAR A CULTURA BATWA | CONSTRUIR UM FUTURO AUTOSSUFICIENTE

Para ser sincero, foi olhando para os meus pais que me apercebi disto. De certa forma, foi difícil perceberem a importância da nossa cultura, tendo em conta que a nova vida com que se depararam era marcada por críticas à nossa cultura tradicional.

Mas à medida que me fui educando, acabei por ler muitos livros, familiarizei-me com muitos conceitos, e também tentei explorar outras culturas, outras culturas indígenas. E consegui fazer comparações entre essas culturas e a nossa. Nós, que tivemos de adoptar um estilo de vida moderno. E eles, que ainda podem praticar a sua cultura tradicional. E isso traz-me a capacidade de ponderar, de fazer comparações, de reencontrar o significado profundo da nossa cultura, e a importância que tinha nas nossas vidas. E consigo perceber o quão mau seria perdê-la completamente.

Se eu não tivesse estudado, não teria a capacidade de lidar com tudo isto, porque na nossa situação atual, ninguém quer que pratiquemos a nossa cultura. Chamam-lhe primitiva, algumas pessoas dizem que é uma heresia. Mas eu, neste momento, continuo a praticar a nossa cultura. E pratico-a onde quiser. E tenho orgulho nisso, porque sei que faz parte da minha identidade. É a minha identidade, é de onde venho, e por isso tenho de a respeitar. E, na verdade, trabalho arduamente para garantir que no futuro, espero que próximo, isto seja ensinado, a importância da nossa cultura, ao resto dos Batwa. E que isso nos permita desenvolver um plano para revitalizar a nossa cultura.

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Celebração após uma reunião comunitária em Kashija

O que eu quero mesmo é ver uma comunidade autossuficiente. Uma comunidade fortalecida economicamente, capaz de atender às suas necessidades sem que isso implique ser explorada, seja de que forma for.

Muitos amigos, incluindo a Azimuth World Foundation, estão a perceber que nós, enquanto Batwa, conseguimos desenvolver as ideias capazes de transformar e melhorar a vida nas nossas comunidades. E é por isso que a parceria com a Azimuth me deixa feliz. Obrigado por nos apoiarem. A outros parceiros, que nos estão a ajudar noutros projetos, de direitos humanos, por exemplo, também lhes agradeço. Muito obrigado.

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A preservação da cultura tradicional Batwa é uma parte importante da missão da BIDO

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Connecting the Dots com Alex Ahimbisibwe

Uma conversa com o diretor da Batwa Indigenous Development Organisation (BIDO) sobre como os Batwa do sudoeste do Uganda estão a reivindicar a segurança alimentar, a educação e o orgulho cultural nos seus próprios termos.

Os Batwa são um povo indígena da região dos Grandes Lagos Africanos. Durante milhares de anos, os Batwa do sudoeste do Uganda viveram como caçadores-recoletores na Floresta Impenetrável de Bwindi. No início da década de 1990, devido à criação de um parque nacional, os Batwa foram expulsos do seu território ancestral. Sem terra, sem realojamento, estas comunidades foram empurradas para as margens da sociedade.

Neste episódio, viajamos até à aldeia de Kashija, no distrito de Kisoro, para conversar com Alex Ahimbisibwe, diretor da Batwa Indigenous Development Organisation, ou BIDO. Fundada em 2015, a organização procura combater a marginalização dos Batwa através de projetos de desenvolvimento liderados pela própria comunidade.

A Azimuth é parceira da BIDO desde 2022. Atualmente, a nossa parceria engloba duas importantes iniciativas: um projeto agrícola que promove a segurança e soberania alimentar na comunidade, e um projeto educativo que acompanha crianças e jovens Batwa — e os seus pais — ao longo do seu percurso escolar.

Gravámos esta entrevista durante uma visita da nossa equipa a Kashija. Esperamos que seja uma oportunidade para ficar a conhecer melhor o povo Batwa e o trabalho que a BIDO está a levar a cabo no Uganda.

Veja a versão em vídeo (legendas em português disponíveis) m baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast (dobrada em português) ou para ler a versão escrita.

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO

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Comunidade Batwa da aldeia de Kashija, distrito de Kisoro, Uganda

Chamo-me Ahimbisibwe Alex e venho da comunidade Batwa de Kashija. Sou o diretor da Batwa Indigenous Development Organisation. A BIDO foi fundada em 2015.

A comunidade que servimos vive no Uganda, no distrito de Kisoro, município de Rubuguri. E está a cerca de 5, 7 quilómetros da floresta de Bwindi.

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A equipa da BIDO, da esquerda para a direita e de cima para baixo: Kate Bekuna (Secretária), Alex Ahimbisibwe (Diretor Executivo), Julius Banshekura (Coordenador de Educação), Laban Friday (Coordenador Desportivo), Ameria Nyabutono (Contabilista), Shallon Kyomugisha (Coordenadora de Saúde) e Felix Batuma (Coordenador Agrícola),

NUTRIR A COMUNIDADE | O PROJETO AGRÍCOLA DA BIDO

Para o projeto agrícola, o primeiro passo foi mobilizar a comunidade, fazer algum trabalho de sensibilização. Recebemos algum apoio, da Azimuth World Foundation, e começámos a pôr as nossas ideias em prática no terreno.

Sentimos que não só esta comunidade, como as comunidades Batwa em geral, enfrentam problemas de insegurança alimentar, e que há fome nestas comunidades. E há também desnutrição, entre a população infantil. Isto porque os Batwa costumavam caçar na floresta e já não podem fazê-lo, devido às restrições que foram impostas em parques nacionais e nas reservas de caça. É por isso que sentimos esta necessidade de encontrar para o povo Batwa uma fonte alternativa de alimentos.

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Horta familiar no povoado Batwa em Kashija

Recebemos apoio da Azimuth para viajar até ao Quénia. E o principal objetivo dessa viagem era aprender sobre transformação. Isto porque, por vezes, nos parecia que não conseguiríamos dedicar-nos à agricultura. Mas quando chegámos a Yatta, no Quénia, percebemos que há quem esteja a transformar terra árida em terra capaz de sustentar a produção alimentar.

Em certo sentido, perceberam que a terra afinal não é árida. Que talvez essa aridez estivesse na sua mentalidade. E isso, de alguma forma, inspirou-nos: eles foram capazes de transformar uma mentalidade árida, e a partir daí estabilizaram processos de irrigação do solo, conseguiram unir esforços para cavar lagoas que captassem a água da chuva. E, na verdade, isso deu-nos esperança: coisas que à partida parecem impossíveis aos nossos olhos são, na verdade, totalmente possíveis, com outra abordagem.

Houve um momento em que nos apercebemos que a nossa própria mente estava repleta de floresta. Sempre que sentíamos essa falta de alimentos, os nossos pensamentos iam para a floresta. Mas percebemos que é preciso pôr a floresta de lado, porque não nos é permitido aceder a ela. E foi então que percebemos: «Aqui somos abençoados com chuva, não somos afetados pela seca, o solo é fértil.» Portanto, tudo o que tínhamos de fazer era tirar partido destas condições. E foi aí que as coisas começaram a mudar. Foi aí que passámos a usar a terra disponível para produzir alimentos, em vez de ficarmos a pensar na floresta.

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Aweka Gerardina, agricultora Batwa da vila de Kashija

O John, que trabalha em Yatta, veio até Kashija, algum tempo depois da nossa visita ao Quénia. E a BIDO conseguiu uma nova bolsa, que permitiu organizar uma formação na área da agricultura. A comunidade adquiriu competências, ao nível da produção de adubo orgânico, por exemplo. E aprendeu sobre alguns métodos agrícolas, tais como a criação de canteiros rebaixados, a construção de hortas em covas (zai) e a criação de hortas verticais. E, aos poucos, estamos a tentar aplicar estes conhecimentos nas nossas práticas agrícolas. E conseguimos ver que as coisas estão a mudar, que a produtividade está a aumentar, ao termos adquirido este tipo de conhecimentos.

Até agora, cultivámos espécies modernas. Plantamos batata-irlandesa. Plantamos ararutas, que aqui chamamos de inhame. Plantamos batata-doce. Esses são os alimentos básicos. Depois, também plantamos basicamente legumes, como o pimento verde. Plantamos cenoura. Plantamos cebola. Plantamos espinafre.

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Jacque Macharia (Coordenadora Regional para África da Azimuth) com Alex Ahimbisibwe, da BIDO, durante a nossa visita à aldeia de Kashija

Ainda estamos a tentar perceber como podemos integrar algumas das nossas plantas indígenas nestes mesmos jardins. E alguns membros da comunidade começaram a plantar sementes de culturas indígenas, como a Etsura. Isto porque percebemos que precisamos de tentar integrar aqui o nosso sistema alimentar indígena.

A Etsura, a planta de que estava a falar, ajuda na cura de úlceras. A Endema ajuda na produção de fluidos que tornam as articulações mais flexíveis. E outras plantas, como a Entakara, ajudam na desparasitação e garantem que as crianças não são afetadas por vermes intestinais.

É algo que queremos desenvolver. Porque, sob todos os pontos de vista, a nossa cultura tem de ser respeitada, tem de ser preservada. Estamos a tentar encontrar formas de a trazer de volta às nossas vidas.

Para ser sincero, no passado não imaginávamos que seríamos capazes de plantar, de ter uma prática agrícola, de pôr comida no prato. Mas hoje em dia, está a despontar a esperança. E isto também fomenta a unidade na nossa comunidade. Trabalhamos em conjunto, aprendemos em conjunto. Para nutrir a comunidade. Quando a comunidade tem acesso a bons alimentos, não há desnutrição. Ficamos mais saudáveis. E, na verdade, conseguimos ver que as crianças já parecem mais saudáveis do que estavam antes. Nutrimos as crianças, para que possam ter uma vida melhor.

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Legumes plantados na horta comunitária do povoado Batwa em Kashija

Ao longo deste processo, um dos nossos parceiros também nos aconselhou a incluir algum tipo de atividade económica no projeto. E por isso, quando os membros da comunidade tiverem alimentos suficientes para as suas famílias, queremos que também possam vender os excedentes no mercado, tal como qualquer outra pessoa daqui. E assim também vamos fomentar esse fortalecimento económico, que apoia financeiramente os agregados familiares. As pessoas também vão precisar de roupa. Vão precisar de sabão, para a sua higiene. Talvez precisem de uma panela, de chávenas, de outros utensílios para usar em casa.

Quando és pobre, todos olham para ti como uma pessoa vulnerável e muito marginalizada. Mas quando tens autonomia, quando tens comida e és autossuficiente, quando dependes da tua própria horta, não és explorado. Por isso, criar este tipo de apoio económico e permitir que a comunidade seja autossuficiente é algo que muda até a aparência dos membros da comunidade, levando a que a comunidade deixe de ser marginalizada e passe a ser respeitada.

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Felix Batuma, coordenador agrícola da BIDO, na sua horta

NOVOS CAMINHOS PARA AS CRIANÇAS BATWA | O PROJETO EDUCATIVO DA BIDO

Pensámos em desenvolver este projeto educativo porque é através da educação que podemos adquirir os conhecimentos necessários para compreender este mundo em evolução. Os Batwa que não têm instrução, a maioria deles, têm muita dificuldade em compreender as condições em que vivem. Acabam por ser simplesmente explorados, mesmo sem se aperceberem.

Já não temos acesso à maior parte da educação informal, através da qual adquiríamos conhecimentos sobre como sobreviver na floresta. E também as condições em que vivemos estão a mudar. Na verdade, a nossa vida já mudou. Passámos da vida na floresta para a vida moderna. Por isso, precisamos de conhecimentos que nos sirvam agora, que nos permitam viver na nossa situação atual.

Outra preocupação que motivou o projeto foi que a maioria das nossas crianças Batwa, nessa altura, estava a abandonar a escola. E senti que, ao permitir que a maioria das nossas crianças saísse da escola, estávamos a deixar que perdessem algo muito importante. Acabariam por viver na pobreza e em situações de vulnerabilidade, como acontece com os Batwa que não frequentaram a escola. E foi aí que pensámos: «E se também lhes pudéssemos dar uma ajuda, enquanto organização?» Dar-lhes uma ajuda, dar-lhes um empurrão.

E então decidimos desenvolver uma proposta de projeto, para garantir que conseguimos apoiar as nossas crianças, e para que elas consigam continuar o seu percurso educativo. Agora já vejo como as crianças estão a melhorar o seu desempenho escolar. Como estão a conseguir adaptar-se à escola. Sem serem constantemente interrompidas. As crianças começam realmente a conceber o seu futuro. E é isso que lhes está a dar a motivação necessária para se manterem de pé e também para se concentrarem na escola.

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Muhwezi Laban e Tumwirigire Aphia, alunos do ensino básico apoiados pelo programa educativo da BIDO

Na verdade, vemos como os pais apreciam isto e nos dizem: «Se num futuro próximo o Alex já não puder estar no escritório, talvez eles consigam substituí-lo.» Também vêm como os jovens poderão vir a ajudar os membros da comunidade, seja desenvolvendo um projeto, seja aplicando os conhecimentos adquiridos na escola, proporcionando alternativas à situação atual dos Batwa. E, possivelmente, também poderão extender esse apoio a outras crianças Batwa.

Para ser honesto, havia alguns pais que até recentemente costumavam olhar para esta educação moderna, a educação formal, de forma negativa. Porque não fazia parte da cultura da floresta. Algumas das crianças que iam para a escola também acabavam por se afastar dos pais, porque tinham frequentado internatos longe de casa e, quando voltavam, já tinham outro nível de inteligência. Mas estes problemas também estão a ser combatidos através da mentoria que a BIDO proporciona. Orientamos as crianças, garantimos que respeitam os pais, que não se esquecem das suas origens. E também tentamos melhorar as suas vidas em casa e garantir essa integração com as suas famílias.

Sentimos que os próprios pais das crianças que estamos a apoiar também precisam de ser sensibilizados, de receber orientação, para garantir que também eles acompanham a BIDO nesta caminhada, neste apoio aos seus filhos. Assim não sentimos que estamos a fazer isto sozinhos. Sentimos que esta jornada é da BIDO e dos pais, é das crianças e dos professores. E até os pequenos negócios locais podem ter o seu papel.

É por isso que um dos nossos objetivos atualmente passa por apoiar os pais economicamente, para garantir que também eles são capazes de contribuir para o processo educativo dos seus filhos. Assim, damos-lhes pequenas bolsas para começarem projetos, e eles têm sido muito receptivos e demonstrado interesse em expandir estas iniciativas. E também vemos como hoje já estão a acompanhar o progresso dos seus filhos na escola. Alguns visitam regularmente os filhos na escola e também reunem com os professores. Isto era algo que nunca acontecia antes.

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O grupo de pais, um elemento essencial para o sucesso do projeto educativo da BIDO.

REVITALIZAR A CULTURA BATWA | CONSTRUIR UM FUTURO AUTOSSUFICIENTE

Para ser sincero, foi olhando para os meus pais que me apercebi disto. De certa forma, foi difícil perceberem a importância da nossa cultura, tendo em conta que a nova vida com que se depararam era marcada por críticas à nossa cultura tradicional.

Mas à medida que me fui educando, acabei por ler muitos livros, familiarizei-me com muitos conceitos, e também tentei explorar outras culturas, outras culturas indígenas. E consegui fazer comparações entre essas culturas e a nossa. Nós, que tivemos de adoptar um estilo de vida moderno. E eles, que ainda podem praticar a sua cultura tradicional. E isso traz-me a capacidade de ponderar, de fazer comparações, de reencontrar o significado profundo da nossa cultura, e a importância que tinha nas nossas vidas. E consigo perceber o quão mau seria perdê-la completamente.

Se eu não tivesse estudado, não teria a capacidade de lidar com tudo isto, porque na nossa situação atual, ninguém quer que pratiquemos a nossa cultura. Chamam-lhe primitiva, algumas pessoas dizem que é uma heresia. Mas eu, neste momento, continuo a praticar a nossa cultura. E pratico-a onde quiser. E tenho orgulho nisso, porque sei que faz parte da minha identidade. É a minha identidade, é de onde venho, e por isso tenho de a respeitar. E, na verdade, trabalho arduamente para garantir que no futuro, espero que próximo, isto seja ensinado, a importância da nossa cultura, ao resto dos Batwa. E que isso nos permita desenvolver um plano para revitalizar a nossa cultura.

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Celebração após uma reunião comunitária em Kashija

O que eu quero mesmo é ver uma comunidade autossuficiente. Uma comunidade fortalecida economicamente, capaz de atender às suas necessidades sem que isso implique ser explorada, seja de que forma for.

Muitos amigos, incluindo a Azimuth World Foundation, estão a perceber que nós, enquanto Batwa, conseguimos desenvolver as ideias capazes de transformar e melhorar a vida nas nossas comunidades. E é por isso que a parceria com a Azimuth me deixa feliz. Obrigado por nos apoiarem. A outros parceiros, que nos estão a ajudar noutros projetos, de direitos humanos, por exemplo, também lhes agradeço. Muito obrigado.

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A preservação da cultura tradicional Batwa é uma parte importante da missão da BIDO

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