Connecting the Dots com Elvis Guerra

Uma conversa com a poeta, tradutora, ativista e artesã muxe sobre identidade, tradição e o peso político de contar a sua própria história.
O povo zapoteca do sul do México desde há muito reconhece mais do que dois géneros. Em Juchitán, no estado de Oaxaca, uma pessoa nascida com um corpo masculino que vive uma identidade e um papel femininos na comunidade é chamada de muxe. Não se trata de um «terceiro género» no sentido ocidental, mas sim de uma identidade distinta, enraizada na cultura zapoteca, que antecede e ultrapassa qualquer categoria importada do mundo exterior.
Elvis Guerra nasceu em Juchitán em 1993. É uma poeta, tradutora, ativista e artesã muxe. As suas três coleções de poesia, incluindo «Ramonera» e «Muxitán», demonstram a natureza crua e política da sua arte, e têm levado Elvis a viajar pelo mundo para falar sobre a realidade da sua vida enquanto muxe.
Encontramo-nos com Elvis no festival FOLIO, em Óbidos, Portugal, onde gravámos esta conversa inspiradora.
Siga as contas oficiais de Elvis Guerra no Instagram e Facebook.
Veja a versão em vídeo (legendas em português disponíveis) em baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast (em português e espanhol) ou para ler a versão escrita.
CONNECTING THE DOTS – PODCAST
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TRANSCRIÇÃO

SER MUXE | IDENTIDADE E POSIÇÃO POLÍTICA
A cultura zapoteca engloba várias identidades, e uma delas é a identidade muxe. As culturas zapoteca e muxe coexistem num mesmo lugar. São lutas que não podem ser separadas. A defesa da identidade muxe anda de mãos dadas com a defesa da minha identidade como povo, como comunidade, como nação zapoteca.
E, por isso, ser muxe tem também a ver com o território, com um espaço geográfico, com a língua e manifesta-se ainda no vestuário. Ser muxe é assumir uma postura política. Falamos a nossa língua materna, que é o zapoteco, o didxazá. Usamos os nossos belos trajes, que são para nós uma segunda pele.
Mas, além disso, exercemos a nossa sexualidade e vivemo-la de forma dissidente. O que nos confere uma identidade sexual, de género e cultural dissidente, e coloca-nos numa posição distinta do resto da comunidade. E é por isso que a luta muxe é também uma luta identitária.

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Edição portuguesa de “Ramonera”, publicada pela Orfeu Negro
DO DOMÉSTICO AO CRIATIVO | PARA ALÉM DA ROMANTIZAÇÃO
Todos os documentários que foram feitos romantizam a identidade muxe. Olham para nós como se fôssemos objetos de estudo. E nós somos sujeitos com direitos. E consigo ver que fazem um retrato que não é totalmente verdadeiro.
Há certos temas que gostaria que fossem tratados nos documentários, como a sexualidade. A forma como vivemos a nossa sexualidade de maneira diferente.
Ou, por exemplo, que por conveniência há uma aceitação das muxes. Porque, no fim de contas, somos nós, as muxes, que cuidamos dos pais, que cuidamos deles quando envelhecem, quando morrem. Mas ninguém fala da solidão vivida por uma muxe quando os pais morrem.
Quando digo que temos de falar por nós próprias, isso quer dizer que temos de o fazer através da poesia, da música, da arte, da pintura, da fotografia, da dança. Ou seja, através de todas as formas de expressão artística. Senão parece que somos apenas boas cozinheiras, boas bordadeiras, boas maquilhadoras, boas costureiras.
Mas isso também leva a crer que não temos a possibilidade de sonhar. É como se nos proibissem de ansiar por mais, de querermos ser artistas, de nos querermos destacar. E, por isso, acredito que temos de passar do domínio doméstico para o criativo. E essa é a aposta.

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Elvis Guerra no FOLIO, em Óbidos
Espero que, daqui a alguns anos, haja mais muxes a escrever poesia, a fazer música, a fazer rap na nossa língua, a denunciar os problemas que a comunidade muxe enfrenta. Aquilo que não aparece nos documentários: os crimes de ódio, os assassinatos, a discriminação por motivos de género, o abandono escolar das muxes menores de idade, os problemas de saúde relacionados com o VIH/SIDA. As mortes por asfixia, devido à injeção de biopolímeros. O trabalho sexual como única fonte de emprego.
Ou seja, temos de abordar estes temas que atravessam as nossas vidas, e não apenas o glamour que esta realidade representa. Isto é o glamour. Mas o que é que eu tenho de fazer para chegar até aqui? E é isso que temos de abordar.

3001000036225-1686342059-955
“Muxitán”, publlicado pela UNAM no Mexico
DISTINTITIVAMENTE INDÍGENA | O GÉNERO NA CULTURA ZAPOTECA
Há muito tempo que se tenta encaixar as muzes na sigla LGBTTIQ+. E se isso acontecesse, teria de ser MLGBTTIQ+. Porque a identidade muxe é anterior ao movimento LGBT.
A comunidade muxe zapoteca de Juchitán tem uma história de luta. Temos uma história que se foi forjando na luta pelo respeito e pelo reconhecimento dos direitos mais básicos da comunidade muxe, tal como o direito à vida.
Começou como uma luta e, neste momento, é já festa celebrada anualmente, onde se coroa uma rainha, segundo o formato de uma festa tradicional zapoteca. Mas para a comunidade muxe é uma oportunidade de partilha com o resto do mundo.
E, por isso, creio que é preciso falar das identidades indígenas sexualmente dissidentes como uma questão à parte. E se querem encaixar-nos, rotular-nos segundo o mundo ocidental, isso simplesmente não é possível, porque vivemos a sexualidade de forma diferente.
Para nós, não há bissexuais, não há pansexuais; existem homens, mulheres, muxes e nguiu. Estas são as quatro identidades de género.
Portanto, se estou a falar de uma estrutura sexual diferente, de um exercício da sexualidade diferente, por que razão teríamos de corresponder ao mundo ocidental?
Dizem que somos um terceiro género; mas, então, eu falaria de um quarto género, que são os nguiu. Um género que foi invisibilizado. Eu, pelo contrário, acredito que somos mais um género, um género à parte. Não um terceiro, não um primeiro, não um segundo, não um quarto. Porque a ordem não existe. A ordem não importa, na defesa da tua pessoa, da tua identidade.

PRESERVAR E QUEBRAR A TRADIÇÃO | PERSPETIVAS DE UM ESPÍRITO DUAL
A palavra «tradição» e a palavra «traição» têm a mesma raiz etimológica. Por isso, dizemos que a palavra «tradição» é uma traição constante.
Eu defendo a minha identidade. Não a tradicional. A minha identidade.
E o que é que quebramos com isso? Quebramos a ideia de que as muxes estão destinadas exclusivamente ao trabalho doméstico. Que isso é que é tradicional. E eu digo: não, não gosto dessa tradição. E, por isso, quero atrever-me a quebrá-la.
“As muxes não podem estudar, não podem ir à escola. Porque aspiram a ser algo mais?” Eu rompi com essa tradição e fiz uma licenciatura. “Uma muxe não deveria governar, não deveria aspirar a cargos públicos.” Eu não aspiro a um cargo público, mas gostaria que uma muxe se atrevesse a ocupar um cargo público.
Ou seja, temos essa capacidade. Somos pessoas. Somos inteligentes. Mas, além disso, temos a sensibilidade das mulheres. E esta dualidade que coexiste em nós, no nosso espírito, leva-me a concordar com o que dizia o frade Juan de Córdoba, no século XVI, quando define a palavra «muxe» como «pessoa com duas almas ou dois espíritos». E sim, acredito que somos essa dualidade. Sim, acredito que estas duas entidades coabitam e coexistem em nós. Que, por um lado, temos a sensibilidade de uma mulher e, por outro, temos esta vontade de romper com a tradição.

Connecting the Dots com Elvis Guerra

Uma conversa com a poeta, tradutora, ativista e artesã muxe sobre identidade, tradição e o peso político de contar a sua própria história.
O povo zapoteca do sul do México desde há muito reconhece mais do que dois géneros. Em Juchitán, no estado de Oaxaca, uma pessoa nascida com um corpo masculino que vive uma identidade e um papel femininos na comunidade é chamada de muxe. Não se trata de um «terceiro género» no sentido ocidental, mas sim de uma identidade distinta, enraizada na cultura zapoteca, que antecede e ultrapassa qualquer categoria importada do mundo exterior.
Elvis Guerra nasceu em Juchitán em 1993. É uma poeta, tradutora, ativista e artesã muxe. As suas três coleções de poesia, incluindo «Ramonera» e «Muxitán», demonstram a natureza crua e política da sua arte, e têm levado Elvis a viajar pelo mundo para falar sobre a realidade da sua vida enquanto muxe.
Encontramo-nos com Elvis no festival FOLIO, em Óbidos, Portugal, onde gravámos esta conversa inspiradora.
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Veja a versão em vídeo (legendas em português disponíveis) em baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast (em português e espanhol) ou para ler a versão escrita.
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SER MUXE | IDENTIDADE E POSIÇÃO POLÍTICA
A cultura zapoteca engloba várias identidades, e uma delas é a identidade muxe. As culturas zapoteca e muxe coexistem num mesmo lugar. São lutas que não podem ser separadas. A defesa da identidade muxe anda de mãos dadas com a defesa da minha identidade como povo, como comunidade, como nação zapoteca.
E, por isso, ser muxe tem também a ver com o território, com um espaço geográfico, com a língua e manifesta-se ainda no vestuário. Ser muxe é assumir uma postura política. Falamos a nossa língua materna, que é o zapoteco, o didxazá. Usamos os nossos belos trajes, que são para nós uma segunda pele.
Mas, além disso, exercemos a nossa sexualidade e vivemo-la de forma dissidente. O que nos confere uma identidade sexual, de género e cultural dissidente, e coloca-nos numa posição distinta do resto da comunidade. E é por isso que a luta muxe é também uma luta identitária.

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Edição portuguesa de “Ramonera”, publicada pela Orfeu Negro
DO DOMÉSTICO AO CRIATIVO | PARA ALÉM DA ROMANTIZAÇÃO
Todos os documentários que foram feitos romantizam a identidade muxe. Olham para nós como se fôssemos objetos de estudo. E nós somos sujeitos com direitos. E consigo ver que fazem um retrato que não é totalmente verdadeiro.
Há certos temas que gostaria que fossem tratados nos documentários, como a sexualidade. A forma como vivemos a nossa sexualidade de maneira diferente.
Ou, por exemplo, que por conveniência há uma aceitação das muxes. Porque, no fim de contas, somos nós, as muxes, que cuidamos dos pais, que cuidamos deles quando envelhecem, quando morrem. Mas ninguém fala da solidão vivida por uma muxe quando os pais morrem.
Quando digo que temos de falar por nós próprias, isso quer dizer que temos de o fazer através da poesia, da música, da arte, da pintura, da fotografia, da dança. Ou seja, através de todas as formas de expressão artística. Senão parece que somos apenas boas cozinheiras, boas bordadeiras, boas maquilhadoras, boas costureiras.
Mas isso também leva a crer que não temos a possibilidade de sonhar. É como se nos proibissem de ansiar por mais, de querermos ser artistas, de nos querermos destacar. E, por isso, acredito que temos de passar do domínio doméstico para o criativo. E essa é a aposta.

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Elvis Guerra no FOLIO, em Óbidos
Espero que, daqui a alguns anos, haja mais muxes a escrever poesia, a fazer música, a fazer rap na nossa língua, a denunciar os problemas que a comunidade muxe enfrenta. Aquilo que não aparece nos documentários: os crimes de ódio, os assassinatos, a discriminação por motivos de género, o abandono escolar das muxes menores de idade, os problemas de saúde relacionados com o VIH/SIDA. As mortes por asfixia, devido à injeção de biopolímeros. O trabalho sexual como única fonte de emprego.
Ou seja, temos de abordar estes temas que atravessam as nossas vidas, e não apenas o glamour que esta realidade representa. Isto é o glamour. Mas o que é que eu tenho de fazer para chegar até aqui? E é isso que temos de abordar.

3001000036225-1686342059-955
“Muxitán”, publlicado pela UNAM no Mexico
DISTINTITIVAMENTE INDÍGENA | O GÉNERO NA CULTURA ZAPOTECA
Há muito tempo que se tenta encaixar as muzes na sigla LGBTTIQ+. E se isso acontecesse, teria de ser MLGBTTIQ+. Porque a identidade muxe é anterior ao movimento LGBT.
A comunidade muxe zapoteca de Juchitán tem uma história de luta. Temos uma história que se foi forjando na luta pelo respeito e pelo reconhecimento dos direitos mais básicos da comunidade muxe, tal como o direito à vida.
Começou como uma luta e, neste momento, é já festa celebrada anualmente, onde se coroa uma rainha, segundo o formato de uma festa tradicional zapoteca. Mas para a comunidade muxe é uma oportunidade de partilha com o resto do mundo.
E, por isso, creio que é preciso falar das identidades indígenas sexualmente dissidentes como uma questão à parte. E se querem encaixar-nos, rotular-nos segundo o mundo ocidental, isso simplesmente não é possível, porque vivemos a sexualidade de forma diferente.
Para nós, não há bissexuais, não há pansexuais; existem homens, mulheres, muxes e nguiu. Estas são as quatro identidades de género.
Portanto, se estou a falar de uma estrutura sexual diferente, de um exercício da sexualidade diferente, por que razão teríamos de corresponder ao mundo ocidental?
Dizem que somos um terceiro género; mas, então, eu falaria de um quarto género, que são os nguiu. Um género que foi invisibilizado. Eu, pelo contrário, acredito que somos mais um género, um género à parte. Não um terceiro, não um primeiro, não um segundo, não um quarto. Porque a ordem não existe. A ordem não importa, na defesa da tua pessoa, da tua identidade.

PRESERVAR E QUEBRAR A TRADIÇÃO | PERSPETIVAS DE UM ESPÍRITO DUAL
A palavra «tradição» e a palavra «traição» têm a mesma raiz etimológica. Por isso, dizemos que a palavra «tradição» é uma traição constante.
Eu defendo a minha identidade. Não a tradicional. A minha identidade.
E o que é que quebramos com isso? Quebramos a ideia de que as muxes estão destinadas exclusivamente ao trabalho doméstico. Que isso é que é tradicional. E eu digo: não, não gosto dessa tradição. E, por isso, quero atrever-me a quebrá-la.
“As muxes não podem estudar, não podem ir à escola. Porque aspiram a ser algo mais?” Eu rompi com essa tradição e fiz uma licenciatura. “Uma muxe não deveria governar, não deveria aspirar a cargos públicos.” Eu não aspiro a um cargo público, mas gostaria que uma muxe se atrevesse a ocupar um cargo público.
Ou seja, temos essa capacidade. Somos pessoas. Somos inteligentes. Mas, além disso, temos a sensibilidade das mulheres. E esta dualidade que coexiste em nós, no nosso espírito, leva-me a concordar com o que dizia o frade Juan de Córdoba, no século XVI, quando define a palavra «muxe» como «pessoa com duas almas ou dois espíritos». E sim, acredito que somos essa dualidade. Sim, acredito que estas duas entidades coabitam e coexistem em nós. Que, por um lado, temos a sensibilidade de uma mulher e, por outro, temos esta vontade de romper com a tradição.






