Connecting the Dots com Brisa Flow

Uma conversa com a rapper, cantora e produtora Mapuche sobre ancestralidade, exílio e os territórios sonoros onde a memória indígena rejeita ser silenciada.

Brisa de la Cordillera, Mapuche, é filha de artesãos chilenos que saíram do país em 1987 durante a ditadura de Pinochet. Cresceu no Brasil, num bairro periférico de Belo Horizonte, em Minas Gerais, onde começou o seu percurso artístico.

É rapper, cantora, compositora, produtora, educadora. A sua obra traça um percurso singular que passa pelo rap, cantos ancestrais, jazz, electrónica e música andina. Lançou três álbuns: “Newen”, “Selvagem como o vento” e “Janequeo”. Foi a primeira artista indígena a actuar no Lollapalooza.

Falámos com Brisa durante a sua passagem por Portugal, onde participou no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, e onde realizou uma residência artística promovida pela plataforma Terra Batida, que tem convidado artistas indígenas brasileiros a explorar as políticas de memória e apagamento que atravessam os acervos mantidos em museus e arquivos em Portugal.

Descubra o imaginário artístico de Brisa Flow nos seus canais oficiais no Youtube e Spotify, e mantenha-se a par das últimas novidades através da conta oficial de Instagram.

Veja a versão em vídeo em baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast ou para ler a versão escrita.

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

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TRANSCRIÇÃO

Brisa-Flow-by-Camila-Sánchez-03

Crédito: Camila Sanchez

EPISTEMICÍDIO | HIP-HOP E HISTÓRIA

Eu trabalho com o hip-hop há muitos anos. A música dos povos originários, e o hip-hop – que é da cultura preta, jamaicana – está muito inserido dentro da educação de várias pessoas, de várias crianças no Brasil. Quando eu fui estudar música como licenciatura, eu percebi que o currículo é extremamente racista. Tem um apagamento, assim, muito grande. Para mim, foi uma grande violência. E aí, entendi que o epistemicídio era isso. Porque como se formam professores, se dentro do currículo dos professores não tem essas histórias, esses cantos, não tem respeito, não tem memória?

O hip-hop foi uma grande aula de história para eu, que estava sendo formada na adolescência. Me vi em muitas similaridades com o “Sobrevivendo no Inferno”, que é um disco do Racionais de 1997. Quando eu tive acesso à primeira letra do Racionais, e aí eu entendi um livro de história.

E aí, quando eu decido ser acadêmica, depois de muitos anos, eu escrevo uma música ao lado do Ian Wapichana, que é o meu companheiro, e a gente queria falar sobre esse epistemicídio. O quanto ele é presente. O quanto o hip-hop trouxe para a gente outra história. A música se chamava, na verdade, “Estupro, Suicídio e Assassinato”. E esse foi o nome da música até eu lançar o meu disco, “Janequeo”.

Nessa letra dessa música, “Epistemicídio”, a gente fala sobre o trauma da língua, o trauma da palavra. A gente fala assim: “Lejos de los Andes, nada como antes // de la Cordillera, nada como antes.  // Breeze driftin’ on by // It’s a new life, it’s a new day for me. // Um rezo de Nina para começar o meu dia nesse país inventado, // onde a cruz, a coroa e o Estado querem colonizar o originário. // Sua cultura, sua crença, sua língua, // e aí logo você pensa que isso é só passado, um manejo do subjetivo e do significado. // Você tem que ficar ligado nos códigos, nas linguagens, // para não ser capturado pelas margens. // Eles estão na caça, eles estão na caça, // para fazer manutenção do poder // pela TV ou pelo algoritmo, // e é nítido que o genocídio é responsável pela alta taxa de suicídio e assassinato.” 

Por isso que a música se chamava “Estupro, Suicídio e Assassinato”, que foi tudo que veio com a língua, mas foi silenciado e não foi chamado dessa forma. Só que aí a gente pensou: “Quem vai querer ouvir uma música “Estupro, Suicídio e Assassinato”?” Ninguém quer ver a verdade como ela é. Então, aí, a gente colocou “Espistemicídio”, que é o nome académico para tudo isso. 

E funcionou muito bem. Fizemos um vídeo no ATL, no Acampamento Terra Livre dos Povos Originários, registrando que a gente ainda está lutando contra o epistemicídio. E acredito que o hip-hop deve continuar fazendo esse papel de trazer a verdade histórica, social, política que atravessa os nossos corpos.

COLAPSAR FRONTEIRAS | MAPUCHE EM MINAS GERAIS

Cresci em Sabará, que é ao lado de Belo Horizonte. Obviamente, a solidão é também muito violenta. Estar longe, não poder participar dos rituais, não poder ter um “rehue”. Mas acredito que o Ngen – o Ngen-ko; o espírito Ngen Newen da força; o espírito Ngen da água (minha família vem dos rios), de Ngen-Leufu; – acredito que tudo isso me acompanhou. Kürüf, o Vento, o nome que a minha mãe me deu, Brisa de la Cordillera. 

Eu cresci em frente a montanhas, então acredito também que continuei sendo protegida pelos Ngen daquele lugar em que eu vivia. Que era o espírito da montanha no final da Rua Espanha, onde eu morei. Que o meu bairro se chama Nações Unidas, onde eu cresci. E é um bairro onde todas as ruas têm nomes de países. E, coincidentemente ou não, eu morava na Rua Espanha. E aí sempre isso foi já uma questão: “Mãe, Espanha não é o país que colonizou o Chile?” E aí, todos esses contextos históricos, minha mãe me educou.

Por mais que eu entendesse a descendência indígena como um lugar de apagamento, eu também entendia que eu tinha uma cultura presente dentro de casa. Então, a primeira quebra de fronteira que eu vivi foi o atravessamento da minha casa para a escola, que era um outro mundo. Então, fui uma criança originária, de filhos de chilenos que passavam por xenofobia. A xenofobia com os povos originários dos Andes, ela não é chamada de racismo no Brasil. Mas ela é totalmente racista, porque ela é ligada ao fenótipo dos povos originários que vêm do sul, tanto do Chile, quanto da Bolívia, quanto do Peru. E o quanto isso coloca muitas questões, diz muito sobre o apagamento, e o quanto as pessoas ainda estão afastadas do verdadeiro contexto histórico, do que é que é o nosso continente. 

Então, foi muito violento crescer dessa forma. Mas, ao mesmo tempo, minha mãe sempre me trançou. Isso foi muito importante. Ouvi muitas músicas. Sempre estive próxima do Ngen, da força das flautas. Desde criança que eu toco ocarina. Desde criança eu tenho uma cascahuilla das águas. Que é uma cascahuilla diferente, de acordo com o seu clã, se o seu clã é do rio, se o seu clã é Leufu, se o seu clã é Lafkenche, que é do mar. E eu sempre tive uma ligação muito forte com os rios do Brasil. Então, eu me sinto um corpo “caminante”, como eu gosto de falar. Mas Mapuche, em qualquer lugar que eu for. 

E não só Mapuche. Mineira, também. Porque eu sinto que Minas Gerais também tem as culturas indígenas, que estão presentes nos rios, ali, e que também vivem um genocídio absurdo por causa da mineração. E eu acredito que essa força ainda está presente na cultura intelectual de Minas Gerais, que é muito rica musicalmente, e que me formou, também.

FUTURO ANCESTRAL | TEMPO ESPIRAL

Isso foi uma época em que a imprensa me chamou de expoente do futurismo indígena, porque eu fui a primeira indígena a cantar no Lollapalooza. Acho que vem muito dessa palavra de “futuro ancestral”. O Ailton Krenak fala que o futuro é ancestral. Eu acredito que não existe futuro. O futuro sempre é um fruto da ansiedade. E o amanhã, teoricamente, é sempre hoje. Então, nessa não-linearidade no tempo espiral, em que as coisas, muitas se repetem, é como se o futuro fosse o passado. A gente está tentando imaginar um futuro possível. Só vai existir essa possibilidade quando a gente contar o que realmente aconteceu no passado, para a gente entender o que está acontecendo no presente. 

Agora a gente está vivendo uma época super quente aqui na Europa. E no Brasil, lá no território, a gente está vivendo uma chuva intensa na Mata Atlântica. Um frio, uma ventania. Então, esse futuro não existe. O que a gente está vendo é talvez um fim da espécie humana. E quem é que vai ficar vivo diante disso? Quais são os planos tecnológicos para esse futurismo? Quem são os povos que vão ser beneficiados com as tecnologias? E quem vai pagar a conta da crise climática? Que é o racismo ambiental, que já está acontecendo.

Venho falar de futuro de uma forma não tão tecnológica, mas talvez um pouco mais analógica. E eu sou uma pessoa que gosta de usar celular, sintetizador. Domino bem o código da branquitude. Venho e volto. Troco de máscara fácil, nessa tecnologia. Mas tenho caminhado para um lado cada vez mais analógico, porque justamente acessando esses mundos, tenho visto o quanto isso é extremamente adoecedor. O mundo da inteligência artificial, o mundo dos aparelhos mobile. E tenho visto o quanto é que é importante falar que esse futuro está um futuro falido.

MARICHIWEU | VENCEREMOS 10 VEZES MAIS

Eu acredito que eu sou uma Weichafe. Por mais que eu não cresci no território com um ritual Weichafe, eu sinto que eu passei um ritual Weichafe de guerreira na cidade, tendo que sobreviver em São Paulo com uma criança recém-nascida, tentando arrumar um trabalho e continuar na história dos meus antigos, que também é uma história de território. 

Minha mãe chegou no Brasil sem nada. Comigo na barriga, sem dinheiro. Sentou na Praça da Sé. Aí veio uma pessoa, deu uma grana, ela conseguiu chegar em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde eu cresci. Onde ela se tornou uma artesã conhecida. 

Ela e meu pai trabalham prata. A prata, para nosso povo Mapuche, é uma herança ancestral que vai chegando. Meu pai não aprendeu a prata dentro de uma estrutura comunitária Mapuche. Ele herdou o dom da prata no seu DNA, no seu espírito. E trouxe isso para o Brasil. E eu gosto muito de trazer isso, também. Porque eu acho que eu sempre fui uma pessoa rodeada por prata. Na oficina, cantando ali, brincando, meu pai fazendo seus artesanatos à mão. 

Para mim, “Marichiweu, venceremos 10 mil vezes mais”, é porque a gente está sempre vencendo o colonialismo. Até quando a gente está crescendo numa periferia de Minas Gerais, eu estou vencendo o colonialismo, também. Minas Gerais está praticamente toda estuprada pela mineração. Se você faz uma viagem em torno de Minas, você vê as serras cortadas. E a tecnologia, hoje em dia, tem drones que sobem de cima e vêem onde é que tem minério, onde é que tem ouro, para as empresas poderem ter acesso a esses territórios. As empresas têm acesso a isso com muita facilidade no Brasil inteiro. Isso não acontece diferente no Chile.

E a luta Mapuche é extremamente perseguida. Agora a gente tem essa história absurda da Julia Chuñil. Foi uma Mapuche que ficou desaparecida, acho que mais de oito meses. E ela foi queimada, a mando de um empresário no Chile. E os Mapuche que se opõem a isso, eles são torturados, eles são presos políticos, são considerados terroristas. É absurdo, a gente considerar uma pessoa que defende o território e seu bioma como terrorista. E isso está acontecendo agora. Tem polícia dentro do território Mapuche, agora, no Chile. 

Isso está acontecendo agora com os Pataxós, lá no Brasil. Onde Nega Pataxó foi assassinada. Outros jovens Pataxós foram assassinados, também. Inclusive, um dos jovens curtia muito rap, e fazia rap. A gente também teve o assassinato do Brayan. Misteriosamente, apareceu atropelado na Avenida Bandeirantes, que fica perto do território Guarani, quando a gente se manifestou contra a PEC 490. 

Então, a gente tem repressão com os povos originários até hoje. E é sempre uma repressão ligada ao território. Acredito que é uma luta antiga. Mas, ao mesmo tempo, a gente fala da luta muitas vezes, de uma forma muito desanimadora. Tanto, que a juventude indígena é a que mais se suicida. É um reflexo, como eu falei, do epistemicídio. É um reflexo de como a gente está lidando com o empobrecimento, de uma forma sem perspectiva. Então, o hip-hop, por exemplo, é uma perspectiva. O acesso ao cinema é uma perspectiva. É como os nossos jovens têm se interessado, para sair dessa pobreza, desse empobrecimento. 

Então, eu tenho pensado que “Marichiweu” é uma palavra que traz essa força. Porque Leftraro venceu os espanhóis, e venceremos 10 mil vezes mais. Janequeo não foi pega. Galvarino fez novas mãos de ferro. E Bartolina Sisa, e Túpac Amaru, e Chicão, e Tuíra, e Jaider Esbell, e por aí vai. Temos muitos nossos guerreiros vivos, mesmo que mortos. Vivos em nós, em nossos espíritos Weichafe. 

Então, é importante trazer também às vezes que vencemos. Porque quando a gente fala dessa guerra, parece que a gente está perdendo o tempo todo. Porque realmente é cruel, a forma como temos sido assassinados. Mas a forma como também a gente é semente viva, e vamos continuar na luta, mostra também que Marichiweu, venceremos dez vezes mais. Porque isso é o que motiva a gente continuar guerreando.

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Connecting the Dots com Brisa Flow

Uma conversa com a rapper, cantora e produtora Mapuche sobre ancestralidade, exílio e os territórios sonoros onde a memória indígena rejeita ser silenciada.

Brisa de la Cordillera, Mapuche, é filha de artesãos chilenos que saíram do país em 1987 durante a ditadura de Pinochet. Cresceu no Brasil, num bairro periférico de Belo Horizonte, em Minas Gerais, onde começou o seu percurso artístico.

É rapper, cantora, compositora, produtora, educadora. A sua obra traça um percurso singular que passa pelo rap, cantos ancestrais, jazz, electrónica e música andina. Lançou três álbuns: “Newen”, “Selvagem como o vento” e “Janequeo”. Foi a primeira artista indígena a actuar no Lollapalooza.

Falámos com Brisa durante a sua passagem por Portugal, onde participou no FOLIO – Festival Literário Internacional de Óbidos, e onde realizou uma residência artística promovida pela plataforma Terra Batida, que tem convidado artistas indígenas brasileiros a explorar as políticas de memória e apagamento que atravessam os acervos mantidos em museus e arquivos em Portugal.

Descubra o imaginário artístico de Brisa Flow nos seus canais oficiais no Youtube e Spotify, e mantenha-se a par das últimas novidades através da conta oficial de Instagram.

Veja a versão em vídeo em baixo, ou faça scroll para ouvir a versão em podcast ou para ler a versão escrita.

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Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO

Brisa-Flow-by-Camila-Sánchez-03

Crédito: Camila Sanchez

EPISTEMICÍDIO | HIP-HOP E HISTÓRIA

Eu trabalho com o hip-hop há muitos anos. A música dos povos originários, e o hip-hop – que é da cultura preta, jamaicana – está muito inserido dentro da educação de várias pessoas, de várias crianças no Brasil. Quando eu fui estudar música como licenciatura, eu percebi que o currículo é extremamente racista. Tem um apagamento, assim, muito grande. Para mim, foi uma grande violência. E aí, entendi que o epistemicídio era isso. Porque como se formam professores, se dentro do currículo dos professores não tem essas histórias, esses cantos, não tem respeito, não tem memória?

O hip-hop foi uma grande aula de história para eu, que estava sendo formada na adolescência. Me vi em muitas similaridades com o “Sobrevivendo no Inferno”, que é um disco do Racionais de 1997. Quando eu tive acesso à primeira letra do Racionais, e aí eu entendi um livro de história.

E aí, quando eu decido ser acadêmica, depois de muitos anos, eu escrevo uma música ao lado do Ian Wapichana, que é o meu companheiro, e a gente queria falar sobre esse epistemicídio. O quanto ele é presente. O quanto o hip-hop trouxe para a gente outra história. A música se chamava, na verdade, “Estupro, Suicídio e Assassinato”. E esse foi o nome da música até eu lançar o meu disco, “Janequeo”.

Nessa letra dessa música, “Epistemicídio”, a gente fala sobre o trauma da língua, o trauma da palavra. A gente fala assim: “Lejos de los Andes, nada como antes // de la Cordillera, nada como antes.  // Breeze driftin’ on by // It’s a new life, it’s a new day for me. // Um rezo de Nina para começar o meu dia nesse país inventado, // onde a cruz, a coroa e o Estado querem colonizar o originário. // Sua cultura, sua crença, sua língua, // e aí logo você pensa que isso é só passado, um manejo do subjetivo e do significado. // Você tem que ficar ligado nos códigos, nas linguagens, // para não ser capturado pelas margens. // Eles estão na caça, eles estão na caça, // para fazer manutenção do poder // pela TV ou pelo algoritmo, // e é nítido que o genocídio é responsável pela alta taxa de suicídio e assassinato.” 

Por isso que a música se chamava “Estupro, Suicídio e Assassinato”, que foi tudo que veio com a língua, mas foi silenciado e não foi chamado dessa forma. Só que aí a gente pensou: “Quem vai querer ouvir uma música “Estupro, Suicídio e Assassinato”?” Ninguém quer ver a verdade como ela é. Então, aí, a gente colocou “Espistemicídio”, que é o nome académico para tudo isso. 

E funcionou muito bem. Fizemos um vídeo no ATL, no Acampamento Terra Livre dos Povos Originários, registrando que a gente ainda está lutando contra o epistemicídio. E acredito que o hip-hop deve continuar fazendo esse papel de trazer a verdade histórica, social, política que atravessa os nossos corpos.

COLAPSAR FRONTEIRAS | MAPUCHE EM MINAS GERAIS

Cresci em Sabará, que é ao lado de Belo Horizonte. Obviamente, a solidão é também muito violenta. Estar longe, não poder participar dos rituais, não poder ter um “rehue”. Mas acredito que o Ngen – o Ngen-ko; o espírito Ngen Newen da força; o espírito Ngen da água (minha família vem dos rios), de Ngen-Leufu; – acredito que tudo isso me acompanhou. Kürüf, o Vento, o nome que a minha mãe me deu, Brisa de la Cordillera. 

Eu cresci em frente a montanhas, então acredito também que continuei sendo protegida pelos Ngen daquele lugar em que eu vivia. Que era o espírito da montanha no final da Rua Espanha, onde eu morei. Que o meu bairro se chama Nações Unidas, onde eu cresci. E é um bairro onde todas as ruas têm nomes de países. E, coincidentemente ou não, eu morava na Rua Espanha. E aí sempre isso foi já uma questão: “Mãe, Espanha não é o país que colonizou o Chile?” E aí, todos esses contextos históricos, minha mãe me educou.

Por mais que eu entendesse a descendência indígena como um lugar de apagamento, eu também entendia que eu tinha uma cultura presente dentro de casa. Então, a primeira quebra de fronteira que eu vivi foi o atravessamento da minha casa para a escola, que era um outro mundo. Então, fui uma criança originária, de filhos de chilenos que passavam por xenofobia. A xenofobia com os povos originários dos Andes, ela não é chamada de racismo no Brasil. Mas ela é totalmente racista, porque ela é ligada ao fenótipo dos povos originários que vêm do sul, tanto do Chile, quanto da Bolívia, quanto do Peru. E o quanto isso coloca muitas questões, diz muito sobre o apagamento, e o quanto as pessoas ainda estão afastadas do verdadeiro contexto histórico, do que é que é o nosso continente. 

Então, foi muito violento crescer dessa forma. Mas, ao mesmo tempo, minha mãe sempre me trançou. Isso foi muito importante. Ouvi muitas músicas. Sempre estive próxima do Ngen, da força das flautas. Desde criança que eu toco ocarina. Desde criança eu tenho uma cascahuilla das águas. Que é uma cascahuilla diferente, de acordo com o seu clã, se o seu clã é do rio, se o seu clã é Leufu, se o seu clã é Lafkenche, que é do mar. E eu sempre tive uma ligação muito forte com os rios do Brasil. Então, eu me sinto um corpo “caminante”, como eu gosto de falar. Mas Mapuche, em qualquer lugar que eu for. 

E não só Mapuche. Mineira, também. Porque eu sinto que Minas Gerais também tem as culturas indígenas, que estão presentes nos rios, ali, e que também vivem um genocídio absurdo por causa da mineração. E eu acredito que essa força ainda está presente na cultura intelectual de Minas Gerais, que é muito rica musicalmente, e que me formou, também.

FUTURO ANCESTRAL | TEMPO ESPIRAL

Isso foi uma época em que a imprensa me chamou de expoente do futurismo indígena, porque eu fui a primeira indígena a cantar no Lollapalooza. Acho que vem muito dessa palavra de “futuro ancestral”. O Ailton Krenak fala que o futuro é ancestral. Eu acredito que não existe futuro. O futuro sempre é um fruto da ansiedade. E o amanhã, teoricamente, é sempre hoje. Então, nessa não-linearidade no tempo espiral, em que as coisas, muitas se repetem, é como se o futuro fosse o passado. A gente está tentando imaginar um futuro possível. Só vai existir essa possibilidade quando a gente contar o que realmente aconteceu no passado, para a gente entender o que está acontecendo no presente. 

Agora a gente está vivendo uma época super quente aqui na Europa. E no Brasil, lá no território, a gente está vivendo uma chuva intensa na Mata Atlântica. Um frio, uma ventania. Então, esse futuro não existe. O que a gente está vendo é talvez um fim da espécie humana. E quem é que vai ficar vivo diante disso? Quais são os planos tecnológicos para esse futurismo? Quem são os povos que vão ser beneficiados com as tecnologias? E quem vai pagar a conta da crise climática? Que é o racismo ambiental, que já está acontecendo.

Venho falar de futuro de uma forma não tão tecnológica, mas talvez um pouco mais analógica. E eu sou uma pessoa que gosta de usar celular, sintetizador. Domino bem o código da branquitude. Venho e volto. Troco de máscara fácil, nessa tecnologia. Mas tenho caminhado para um lado cada vez mais analógico, porque justamente acessando esses mundos, tenho visto o quanto isso é extremamente adoecedor. O mundo da inteligência artificial, o mundo dos aparelhos mobile. E tenho visto o quanto é que é importante falar que esse futuro está um futuro falido.

MARICHIWEU | VENCEREMOS 10 VEZES MAIS

Eu acredito que eu sou uma Weichafe. Por mais que eu não cresci no território com um ritual Weichafe, eu sinto que eu passei um ritual Weichafe de guerreira na cidade, tendo que sobreviver em São Paulo com uma criança recém-nascida, tentando arrumar um trabalho e continuar na história dos meus antigos, que também é uma história de território. 

Minha mãe chegou no Brasil sem nada. Comigo na barriga, sem dinheiro. Sentou na Praça da Sé. Aí veio uma pessoa, deu uma grana, ela conseguiu chegar em Belo Horizonte, Minas Gerais, onde eu cresci. Onde ela se tornou uma artesã conhecida. 

Ela e meu pai trabalham prata. A prata, para nosso povo Mapuche, é uma herança ancestral que vai chegando. Meu pai não aprendeu a prata dentro de uma estrutura comunitária Mapuche. Ele herdou o dom da prata no seu DNA, no seu espírito. E trouxe isso para o Brasil. E eu gosto muito de trazer isso, também. Porque eu acho que eu sempre fui uma pessoa rodeada por prata. Na oficina, cantando ali, brincando, meu pai fazendo seus artesanatos à mão. 

Para mim, “Marichiweu, venceremos 10 mil vezes mais”, é porque a gente está sempre vencendo o colonialismo. Até quando a gente está crescendo numa periferia de Minas Gerais, eu estou vencendo o colonialismo, também. Minas Gerais está praticamente toda estuprada pela mineração. Se você faz uma viagem em torno de Minas, você vê as serras cortadas. E a tecnologia, hoje em dia, tem drones que sobem de cima e vêem onde é que tem minério, onde é que tem ouro, para as empresas poderem ter acesso a esses territórios. As empresas têm acesso a isso com muita facilidade no Brasil inteiro. Isso não acontece diferente no Chile.

E a luta Mapuche é extremamente perseguida. Agora a gente tem essa história absurda da Julia Chuñil. Foi uma Mapuche que ficou desaparecida, acho que mais de oito meses. E ela foi queimada, a mando de um empresário no Chile. E os Mapuche que se opõem a isso, eles são torturados, eles são presos políticos, são considerados terroristas. É absurdo, a gente considerar uma pessoa que defende o território e seu bioma como terrorista. E isso está acontecendo agora. Tem polícia dentro do território Mapuche, agora, no Chile. 

Isso está acontecendo agora com os Pataxós, lá no Brasil. Onde Nega Pataxó foi assassinada. Outros jovens Pataxós foram assassinados, também. Inclusive, um dos jovens curtia muito rap, e fazia rap. A gente também teve o assassinato do Brayan. Misteriosamente, apareceu atropelado na Avenida Bandeirantes, que fica perto do território Guarani, quando a gente se manifestou contra a PEC 490. 

Então, a gente tem repressão com os povos originários até hoje. E é sempre uma repressão ligada ao território. Acredito que é uma luta antiga. Mas, ao mesmo tempo, a gente fala da luta muitas vezes, de uma forma muito desanimadora. Tanto, que a juventude indígena é a que mais se suicida. É um reflexo, como eu falei, do epistemicídio. É um reflexo de como a gente está lidando com o empobrecimento, de uma forma sem perspectiva. Então, o hip-hop, por exemplo, é uma perspectiva. O acesso ao cinema é uma perspectiva. É como os nossos jovens têm se interessado, para sair dessa pobreza, desse empobrecimento. 

Então, eu tenho pensado que “Marichiweu” é uma palavra que traz essa força. Porque Leftraro venceu os espanhóis, e venceremos 10 mil vezes mais. Janequeo não foi pega. Galvarino fez novas mãos de ferro. E Bartolina Sisa, e Túpac Amaru, e Chicão, e Tuíra, e Jaider Esbell, e por aí vai. Temos muitos nossos guerreiros vivos, mesmo que mortos. Vivos em nós, em nossos espíritos Weichafe. 

Então, é importante trazer também às vezes que vencemos. Porque quando a gente fala dessa guerra, parece que a gente está perdendo o tempo todo. Porque realmente é cruel, a forma como temos sido assassinados. Mas a forma como também a gente é semente viva, e vamos continuar na luta, mostra também que Marichiweu, venceremos dez vezes mais. Porque isso é o que motiva a gente continuar guerreando.

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