Connecting the Dots com Felipe Borman

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Felipe Borman com Guardas Florestais Cofán. // Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

O diretor executivo da Fundación Sobrevivencia Cofán fala-nos sobre defesa territorial contra a mineração ilegal na Amazónia, proteção ambiental indígena, e a impossibilidade de separar preservação cultural e proteção do território.

A Azimuth é parceira da Fundación Sobrevivencia Cofán desde 2022, tendo apoiado o seu Programa de Guardas Florestais. Este programa protege mais de 400 000 hectares de floresta amazónica e andina.

Mais recentemente, a Azimuth apoiou o projeto Lifeboat Garden, que tem como objetivo preservar o conhecimento tradicional sobre plantas e práticas agrícolas dos Cofán. Apoiámos também a realização de obras na sede da FSC em Quito, onde famílias Cofán e guardas florestais ficam alojados para iniciativas de educação e formação.

Esperamos que esta conversa o inspire a saber mais sobre os Cofán e o trabalho crucial que a FSC está a levar a cabo no Equador.

Veja a versão em vídeo em baixo (legendas em português disponíveis), ou faça scroll para ouvir a versão em podcast (dobrada em português) ou para ler a versão escrita (em português).

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO (TRADUÇÃO DO INGLÊS)

20221122_083515

Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

Chamo-me Felipe Borman. Sou o diretor da Fundación Sobrevivencia Cofán. Pertenço ao povo Cofán, e venho da comunidade de Zábalo.

A Fundación Sobrevivencia Cofán foi criada em 1999 com o objetivo de ajudar os Cofán a navegarem e a sobreviverem, enquanto Povo Indígena, neste mundo em mudança.

Há mais de 20 anos que temos vindo a promover diferentes iniciativas, em áreas como a educação, a conservação, processos de desenvolvimento nas comunidades indígenas, saúde nas comunidades indígenas e muitos outros pequenos projetos que beneficiam diretamente as comunidades Cofán.

No Equador, somos cerca de 1500 Cofán. Estamos distribuídos por 14 centros comunitários distintos. Gerimos cerca de 400.000 a 500.000 hectares de terras, enquanto membros do Povo Cofán.

Os nossos territórios situam-se no nordeste do Equador, e abarcam diferentes tipos de território, que vão desde o páramo até às florestas de planície. Todos os nossos territórios estão ligados através do sistema de afluentes da Amazónia. Entre os nossos territórios existem várias cidades, que têm vindo a crescer como consequência da extração de petróleo no nosso território.

NGS-82828S-21-220901-04604

Crédito: Kiliii Yuyan

A exploração petrolífera começou nos territórios Cofán na década de 1960. Foi isso que desencadeou a chegada do mundo exterior aos nossos territórios. Nessa época, não percebemos o que se estava a passar. Muitas doenças foram trazidas para as nossas comunidades, e dizimaram o nosso povo.

Mas, sobretudo, este período provocou uma diminuição muito substancial do nosso território. As pessoas vieram de fora e disseram: «Estas terras estão livres. Os povos indígenas não têm quaisquer direitos sobre este território.» E a partir daí começaram a estabelecer as suas quintas, a ocupar os territórios.

Enquanto Povo Cofán, fomos percebendo aos poucos o que se passava, e começámos o processo de garantir os nossos próprios títulos de propriedade, começámos a definir formas de proteger os nossos territórios. E ao longo dos anos, através de diferentes lutas, conseguimos recuperar grande parte do território que tínhamos perdido.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

UMA NOVA GERAÇÃO DÁ CONTINUIDADE AO LEGADO

Perdemos um grande líder, o meu pai, Randall. Uma figura central na história dos Cofán. Mas ele treinou um grupo muito competente, capaz de o suceder. Vamos dar continuidade ao seu legado e vamos continuar a trabalhar pelo nosso povo e pelos nossos territórios.

Trabalho com a Fundación há muito tempo, mas costumava fazer maioritariamente trabalho de campo. Ter de gerir ambos os lados, com os desafios financeiros que atravessamos, é por vezes difícil, e tem sido interessante perceber como esses desafios impactam o trabalho que fazemos no terreno.

Às vezes sentimos que não temos tudo o que precisamos, mas estamos muito gratos por todo o apoio que recebemos até agora, e temos esperança que esse apoio vá continuar. Estamos a fazer o melhor que podemos com os meios que temos ao nosso dispor. E enquanto continuarmos a receber esse apoio, continuaremos a trabalhar pela nossa floresta e pelo nosso povo.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

Nós lutamos pelo nosso território. Cuidamos do território. E esse cuidado é um cuidado diferente. Porque, para nós, o território é a nossa casa. A floresta é o que nos sustenta, é uma parte das nossas vidas. Já para as agências governamentais, a floresta é um depósito de recursos. Potenciais recursos para o futuro, ou para serem utilizados já, pela população urbana. Recursos como a água, por exemplo.

E é por isso que temos conseguido proteger os nossos territórios, porque o fazemos com mais coração, acho que é o termo. É por isso que o fazemos melhor. E, obviamente, quando estamos na floresta, sentimo-nos à vontade. Estamos em casa. Conseguimos compreender a floresta, cuidar dela de verdade.

E no sentido de nos envolvermos ainda mais, concorremos recentemente nas eleições para a Federação Cofán. Formámos um grupo, de membros unidos em torno de uma visão semelhante, todos do Povo Cofán. E todos nós, de uma forma ou outra, completámos o nosso percurso no sistema educativo, para que conseguíssemos compreender melhor ambos os mundos. E é com essas ferramentas que vamos trabalhar em prol da nossa nação Cofán.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

O PREÇO DO OURO E A PRESSÃO NOS TERRITÓRIOS DOS COFÁN

Uma das nossas principais áreas de atuação na FSC é a defesa territorial. À medida que o preço do ouro continua a subir, a pressão sobre os nossos territórios, por parte de diferentes empresas mineiras, mineiros ilegais, mineiros artesanais, está a aumentar.

Quem vai até ao nosso território para garimpar ouro numa bateia consegue, num dia mau, cerca de meio grama. Meio grama rende facilmente entre 35 e 40 dólares. Isso é muito mais do que essa pessoa consegue ganhar num emprego comum. Num bom dia, essa pessoa pode conseguir dois ou três gramas, é como ganhar a lotaria.

E isso incentiva a que mais pessoas o façam. A história espalha-se, de pessoa em pessoa, de família em família, e o fenómeno não pára de crescer. Daí, esses mineiros começam a falar com indivíduos com mais recursos. Trazem uma draga e já conseguem obter até 20 gramas por dia.

E para se certificarem de que obtêm todo o ouro que passa pela caixa de lavagem ou pela bateia, o que é que começam a fazer? Começam a usar mercúrio, para garantir que extraem a quantidade máxima de ouro possível.

É claro que a uma draga se segue uma escavadora e uma grande caixa de lavagem. E aí já se deu início a uma grande operação que começa a afetar realmente o nosso território. Assim chegamos ao ponto de ter grandes operações, e pessoas a usar métodos diferentes para extrair ouro, que são prejudiciais para o nosso meio ambiente.

A nossa estratégia é enviar sempre algumas patrulhas ao longo do ano, para garantir que sabemos o que se passa no nosso território e para confrontar estes mineiros. Mas isso já não é suficiente. Enviamos um grupo este mês, que encontra alguns mineiros e os confronta. Mas assim que a patrulha se vai embora, os mineiros regressam ao local. A recompensa é demasiado aliciante para muitas destas pessoas. Estão dispostas a correr riscos enormes para tentar extrair estes recursos da nossa terra.

Estamos à procura de novas estratégias, e esperamos conseguir ter mais pessoas no terreno. Mas isso requer mais recursos.

NGS-82828S-21-220901-04275

Crédito: Kiliii Yuyan

PATRULHAR A LINHA DA FRENTE E CONFRONTAR O AUMENTO DA MINERAÇÃO ILEGAL

São difíceis, os encontros com mineiros ilegais, porque há todo o tipo de pessoas a fazê-lo. Há pessoas pobres, que não têm trabalho e que estão a tentar ganhar algum dinheiro. Há famílias. Há pessoas de classe alta, a fazê-lo de forma mais organizada. Há grupos ilegais. Há pessoas a fazê-lo com o apoio de empresas. Há até outros indígenas a extrair ouro no território.

Cada confronto é diferente. E cada confronto acarreta os seus riscos. Em cada instância temos de preparar um discurso diferente para tentar convencer quem encontramos de que este é o nosso território.

Os nossos guardas florestais são recriminados só por passarem por uma quinta. Nos arredores no território há propriedades que pertencem a agricultores e a famílias não-indígenas. Às vezes para sair dos nossos territórios precisamos de atravessar uma dessas propriedades, e os proprietários ficam furiosos connosco. Começam logo a dizer que é uma invasão de propriedade. Mas, ao mesmo tempo, são essas mesmas pessoas que entram no nosso território para extrair ouro. É muito complicado fazer com que estas pessoas entendam as nossas preocupações.

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Crédito: Hugo Lucitante

Por vezes até nos deparamos com empresas ou pessoas apoiadas por familiares que pertencem ao exército, à polícia ou a alguma instituição governamental. É muito complicado. Por isso, tudo depende de quem vamos confrontar, e tentamos fazer uma pequena investigação antes, para vermos até que ponto a sua história é verdadeira.

Depois, tentamos dirigir-nos às diferentes agências governamentais, incluindo o Ministério do Ambiente. Ou dirigimo-nos diretamente à polícia, ou ao exército. Às vezes, pedimos a outros membros Cofán para nos ajudarem a reforçar a nossa presença nalgum local. Ou seja, depende de quem estamos a confrontar.

E já não encontramos apenas cidadãos comuns. Os grupos armados ilegais também estão a perceber que podem lucrar muito, aqui. E esses grupos, obviamente, ameaçam e recorrem à violência, para controlar diferentes territórios. Depois, colocam o seu próprio pessoal a trabalhar na extração de ouro, por exemplo.

E então, tudo se torna ainda mais perigoso para nós, porque quando vamos confrontá-los, não estamos apenas a confrontar alguém que vem do meio urbano à procura de conseguir algum ouro. Estamos, na verdade, a confrontar pessoas apoiadas por grupos armados ilegais, por gangues violentos e coisas do género.

Além disso, estes gangues e grupos armados ilegais têm ligações a todo o sistema governamental, e por isso nada acontece. É uma luta difícil. Tentamos iniciar o diálogo com ambos os lados, com o lado legal e o lado ilegal. Às vezes, funciona. Outras vezes, não.

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Crédito: Hugo Lucitante

PRESERVAR UMA CULTURA VIVA PARA LÁ DO XAMANISMO

Nós acreditamos profundamente no valor da nossa língua. E para a manter viva, precisamos de dar continuidade às nossas práticas culturais. E para manter as nossas práticas culturais, precisamos que o nosso território, a floresta, permaneça intacto. Ou seja, está tudo interligado.

Um bom exemplo disso é o que acontece com o projeto de educação, aqui em Quito. Temos cinco famílias a viver aqui na cidade, neste momento, para que os filhos possam frequentar as escolas daqui. Mas os pais e os filhos preferem falar espanhol em casa, quando brincam, porque já não estão na floresta, onde a língua é importante. Aqui, é o espanhol que é importante. Sem a floresta, começamos a perder a nossa língua.

Então, são essas ligações que estamos a tentar proteger, e foi por isso que criámos o Lifeboat Garden Center, para tentar salvar essa parte da nossa cultura que corremos o risco de perder.

Há cerca de 14.000 espécies de plantas na Amazónia. Nós interagimos com pelo menos metade delas, ao longo da nossa vida. Tenho quase a certeza de que são cerca de mil plantas para as quais temos nomes na nossa cultura. Mas começamos a esquecer esses nomes quando as plantas deixam de fazer parte da nossa vida.

No Lifeboat Garden Center, estamos a tentar preservar o conhecimento dos Cofán acerca destas plantas, para que o possamos transmitir às gerações futuras, para que não se perca essa parte da nossa cultura e da nossa língua.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

Às vezes, o que acabamos por ouvir do mundo exterior é que toda a nossa cultura gira em torno do mundo sobrenatural. É isso que é esperado dos Povos Indígenas. Eu discordo. Acho que grande parte da nossa cultura gira em torno do mundo físico e natural em que vivemos. E isso não parece ser valorizado pelo mundo exterior.

É por isso que estamos a tentar recuperar e destacar esse lado, dizendo: «Sabem, nós somos muito mais do que o xamanismo, o yagé, a ayahuasca, os trajes bonitos, os nossos xamãs, etc…» Esses não são os únicos aspetos da cultura que precisam de ser preservados. Há muito mais que precisa de ser preservado.

Uma das nossas missões na FSC é formar os Cofán para que possam compreender ambos os mundos. Oferecer uma educação sólida aos jovens, mas sem que estes percam a sua identidade cultural nesse processo. E com um grupo suficientemente grande de pessoas capaz de compreender ambos os mundos, vamos conseguir tomar decisões mais informadas. Isso é extremamente importante para nós, aqui na FSC. É por isso que continuamos a apostar na formação dos jovens, e é por isso que continuamos a procurar melhorar a educação a que os nossos jovens têm acesso.

Mas, ao mesmo tempo, temos de continuar a garantir que os nossos territórios permanecem intactos, que a nossa cultura continua a existir. É verdade que o processo educativo leva muito tempo. Mas a nossa esperança é que, paralelamente a esse processo, vamos conseguir continuar a proteger a nossa floresta, o nosso território, a nossa cultura. Assim, os jovens que passam pelo sistema educativo, que aprendem sobre ambos os mundos, vão ter algo para cuidar e proteger no futuro.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

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Felipe Borman com Guardas Florestais Cofán. // Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

O diretor executivo da Fundación Sobrevivencia Cofán fala-nos sobre defesa territorial contra a mineração ilegal na Amazónia, proteção ambiental indígena, e a impossibilidade de separar preservação cultural e proteção do território.

A Azimuth é parceira da Fundación Sobrevivencia Cofán desde 2022, tendo apoiado o seu Programa de Guardas Florestais. Este programa protege mais de 400 000 hectares de floresta amazónica e andina.

Mais recentemente, a Azimuth apoiou o projeto Lifeboat Garden, que tem como objetivo preservar o conhecimento tradicional sobre plantas e práticas agrícolas dos Cofán. Apoiámos também a realização de obras na sede da FSC em Quito, onde famílias Cofán e guardas florestais ficam alojados para iniciativas de educação e formação.

Esperamos que esta conversa o inspire a saber mais sobre os Cofán e o trabalho crucial que a FSC está a levar a cabo no Equador.

Veja a versão em vídeo em baixo (legendas em português disponíveis), ou faça scroll para ouvir a versão em podcast (dobrada em português) ou para ler a versão escrita (em português).

CONNECTING THE DOTS – PODCAST

Não vive sem os seus podcasts? Para não perder um episódio, subscreva o canal da Azimuth na Apple Podcasts ou no Spotify, aqui.

TRANSCRIÇÃO (TRADUÇÃO DO INGLÊS)

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

Chamo-me Felipe Borman. Sou o diretor da Fundación Sobrevivencia Cofán. Pertenço ao povo Cofán, e venho da comunidade de Zábalo.

A Fundación Sobrevivencia Cofán foi criada em 1999 com o objetivo de ajudar os Cofán a navegarem e a sobreviverem, enquanto Povo Indígena, neste mundo em mudança.

Há mais de 20 anos que temos vindo a promover diferentes iniciativas, em áreas como a educação, a conservação, processos de desenvolvimento nas comunidades indígenas, saúde nas comunidades indígenas e muitos outros pequenos projetos que beneficiam diretamente as comunidades Cofán.

No Equador, somos cerca de 1500 Cofán. Estamos distribuídos por 14 centros comunitários distintos. Gerimos cerca de 400.000 a 500.000 hectares de terras, enquanto membros do Povo Cofán.

Os nossos territórios situam-se no nordeste do Equador, e abarcam diferentes tipos de território, que vão desde o páramo até às florestas de planície. Todos os nossos territórios estão ligados através do sistema de afluentes da Amazónia. Entre os nossos territórios existem várias cidades, que têm vindo a crescer como consequência da extração de petróleo no nosso território.

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Crédito: Kiliii Yuyan

A exploração petrolífera começou nos territórios Cofán na década de 1960. Foi isso que desencadeou a chegada do mundo exterior aos nossos territórios. Nessa época, não percebemos o que se estava a passar. Muitas doenças foram trazidas para as nossas comunidades, e dizimaram o nosso povo.

Mas, sobretudo, este período provocou uma diminuição muito substancial do nosso território. As pessoas vieram de fora e disseram: «Estas terras estão livres. Os povos indígenas não têm quaisquer direitos sobre este território.» E a partir daí começaram a estabelecer as suas quintas, a ocupar os territórios.

Enquanto Povo Cofán, fomos percebendo aos poucos o que se passava, e começámos o processo de garantir os nossos próprios títulos de propriedade, começámos a definir formas de proteger os nossos territórios. E ao longo dos anos, através de diferentes lutas, conseguimos recuperar grande parte do território que tínhamos perdido.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

UMA NOVA GERAÇÃO DÁ CONTINUIDADE AO LEGADO

Perdemos um grande líder, o meu pai, Randall. Uma figura central na história dos Cofán. Mas ele treinou um grupo muito competente, capaz de o suceder. Vamos dar continuidade ao seu legado e vamos continuar a trabalhar pelo nosso povo e pelos nossos territórios.

Trabalho com a Fundación há muito tempo, mas costumava fazer maioritariamente trabalho de campo. Ter de gerir ambos os lados, com os desafios financeiros que atravessamos, é por vezes difícil, e tem sido interessante perceber como esses desafios impactam o trabalho que fazemos no terreno.

Às vezes sentimos que não temos tudo o que precisamos, mas estamos muito gratos por todo o apoio que recebemos até agora, e temos esperança que esse apoio vá continuar. Estamos a fazer o melhor que podemos com os meios que temos ao nosso dispor. E enquanto continuarmos a receber esse apoio, continuaremos a trabalhar pela nossa floresta e pelo nosso povo.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

Nós lutamos pelo nosso território. Cuidamos do território. E esse cuidado é um cuidado diferente. Porque, para nós, o território é a nossa casa. A floresta é o que nos sustenta, é uma parte das nossas vidas. Já para as agências governamentais, a floresta é um depósito de recursos. Potenciais recursos para o futuro, ou para serem utilizados já, pela população urbana. Recursos como a água, por exemplo.

E é por isso que temos conseguido proteger os nossos territórios, porque o fazemos com mais coração, acho que é o termo. É por isso que o fazemos melhor. E, obviamente, quando estamos na floresta, sentimo-nos à vontade. Estamos em casa. Conseguimos compreender a floresta, cuidar dela de verdade.

E no sentido de nos envolvermos ainda mais, concorremos recentemente nas eleições para a Federação Cofán. Formámos um grupo, de membros unidos em torno de uma visão semelhante, todos do Povo Cofán. E todos nós, de uma forma ou outra, completámos o nosso percurso no sistema educativo, para que conseguíssemos compreender melhor ambos os mundos. E é com essas ferramentas que vamos trabalhar em prol da nossa nação Cofán.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

O PREÇO DO OURO E A PRESSÃO NOS TERRITÓRIOS DOS COFÁN

Uma das nossas principais áreas de atuação na FSC é a defesa territorial. À medida que o preço do ouro continua a subir, a pressão sobre os nossos territórios, por parte de diferentes empresas mineiras, mineiros ilegais, mineiros artesanais, está a aumentar.

Quem vai até ao nosso território para garimpar ouro numa bateia consegue, num dia mau, cerca de meio grama. Meio grama rende facilmente entre 35 e 40 dólares. Isso é muito mais do que essa pessoa consegue ganhar num emprego comum. Num bom dia, essa pessoa pode conseguir dois ou três gramas, é como ganhar a lotaria.

E isso incentiva a que mais pessoas o façam. A história espalha-se, de pessoa em pessoa, de família em família, e o fenómeno não pára de crescer. Daí, esses mineiros começam a falar com indivíduos com mais recursos. Trazem uma draga e já conseguem obter até 20 gramas por dia.

E para se certificarem de que obtêm todo o ouro que passa pela caixa de lavagem ou pela bateia, o que é que começam a fazer? Começam a usar mercúrio, para garantir que extraem a quantidade máxima de ouro possível.

É claro que a uma draga se segue uma escavadora e uma grande caixa de lavagem. E aí já se deu início a uma grande operação que começa a afetar realmente o nosso território. Assim chegamos ao ponto de ter grandes operações, e pessoas a usar métodos diferentes para extrair ouro, que são prejudiciais para o nosso meio ambiente.

A nossa estratégia é enviar sempre algumas patrulhas ao longo do ano, para garantir que sabemos o que se passa no nosso território e para confrontar estes mineiros. Mas isso já não é suficiente. Enviamos um grupo este mês, que encontra alguns mineiros e os confronta. Mas assim que a patrulha se vai embora, os mineiros regressam ao local. A recompensa é demasiado aliciante para muitas destas pessoas. Estão dispostas a correr riscos enormes para tentar extrair estes recursos da nossa terra.

Estamos à procura de novas estratégias, e esperamos conseguir ter mais pessoas no terreno. Mas isso requer mais recursos.

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Crédito: Kiliii Yuyan

PATRULHAR A LINHA DA FRENTE E CONFRONTAR O AUMENTO DA MINERAÇÃO ILEGAL

São difíceis, os encontros com mineiros ilegais, porque há todo o tipo de pessoas a fazê-lo. Há pessoas pobres, que não têm trabalho e que estão a tentar ganhar algum dinheiro. Há famílias. Há pessoas de classe alta, a fazê-lo de forma mais organizada. Há grupos ilegais. Há pessoas a fazê-lo com o apoio de empresas. Há até outros indígenas a extrair ouro no território.

Cada confronto é diferente. E cada confronto acarreta os seus riscos. Em cada instância temos de preparar um discurso diferente para tentar convencer quem encontramos de que este é o nosso território.

Os nossos guardas florestais são recriminados só por passarem por uma quinta. Nos arredores no território há propriedades que pertencem a agricultores e a famílias não-indígenas. Às vezes para sair dos nossos territórios precisamos de atravessar uma dessas propriedades, e os proprietários ficam furiosos connosco. Começam logo a dizer que é uma invasão de propriedade. Mas, ao mesmo tempo, são essas mesmas pessoas que entram no nosso território para extrair ouro. É muito complicado fazer com que estas pessoas entendam as nossas preocupações.

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Crédito: Hugo Lucitante

Por vezes até nos deparamos com empresas ou pessoas apoiadas por familiares que pertencem ao exército, à polícia ou a alguma instituição governamental. É muito complicado. Por isso, tudo depende de quem vamos confrontar, e tentamos fazer uma pequena investigação antes, para vermos até que ponto a sua história é verdadeira.

Depois, tentamos dirigir-nos às diferentes agências governamentais, incluindo o Ministério do Ambiente. Ou dirigimo-nos diretamente à polícia, ou ao exército. Às vezes, pedimos a outros membros Cofán para nos ajudarem a reforçar a nossa presença nalgum local. Ou seja, depende de quem estamos a confrontar.

E já não encontramos apenas cidadãos comuns. Os grupos armados ilegais também estão a perceber que podem lucrar muito, aqui. E esses grupos, obviamente, ameaçam e recorrem à violência, para controlar diferentes territórios. Depois, colocam o seu próprio pessoal a trabalhar na extração de ouro, por exemplo.

E então, tudo se torna ainda mais perigoso para nós, porque quando vamos confrontá-los, não estamos apenas a confrontar alguém que vem do meio urbano à procura de conseguir algum ouro. Estamos, na verdade, a confrontar pessoas apoiadas por grupos armados ilegais, por gangues violentos e coisas do género.

Além disso, estes gangues e grupos armados ilegais têm ligações a todo o sistema governamental, e por isso nada acontece. É uma luta difícil. Tentamos iniciar o diálogo com ambos os lados, com o lado legal e o lado ilegal. Às vezes, funciona. Outras vezes, não.

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Crédito: Hugo Lucitante

PRESERVAR UMA CULTURA VIVA PARA LÁ DO XAMANISMO

Nós acreditamos profundamente no valor da nossa língua. E para a manter viva, precisamos de dar continuidade às nossas práticas culturais. E para manter as nossas práticas culturais, precisamos que o nosso território, a floresta, permaneça intacto. Ou seja, está tudo interligado.

Um bom exemplo disso é o que acontece com o projeto de educação, aqui em Quito. Temos cinco famílias a viver aqui na cidade, neste momento, para que os filhos possam frequentar as escolas daqui. Mas os pais e os filhos preferem falar espanhol em casa, quando brincam, porque já não estão na floresta, onde a língua é importante. Aqui, é o espanhol que é importante. Sem a floresta, começamos a perder a nossa língua.

Então, são essas ligações que estamos a tentar proteger, e foi por isso que criámos o Lifeboat Garden Center, para tentar salvar essa parte da nossa cultura que corremos o risco de perder.

Há cerca de 14.000 espécies de plantas na Amazónia. Nós interagimos com pelo menos metade delas, ao longo da nossa vida. Tenho quase a certeza de que são cerca de mil plantas para as quais temos nomes na nossa cultura. Mas começamos a esquecer esses nomes quando as plantas deixam de fazer parte da nossa vida.

No Lifeboat Garden Center, estamos a tentar preservar o conhecimento dos Cofán acerca destas plantas, para que o possamos transmitir às gerações futuras, para que não se perca essa parte da nossa cultura e da nossa língua.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

Às vezes, o que acabamos por ouvir do mundo exterior é que toda a nossa cultura gira em torno do mundo sobrenatural. É isso que é esperado dos Povos Indígenas. Eu discordo. Acho que grande parte da nossa cultura gira em torno do mundo físico e natural em que vivemos. E isso não parece ser valorizado pelo mundo exterior.

É por isso que estamos a tentar recuperar e destacar esse lado, dizendo: «Sabem, nós somos muito mais do que o xamanismo, o yagé, a ayahuasca, os trajes bonitos, os nossos xamãs, etc…» Esses não são os únicos aspetos da cultura que precisam de ser preservados. Há muito mais que precisa de ser preservado.

Uma das nossas missões na FSC é formar os Cofán para que possam compreender ambos os mundos. Oferecer uma educação sólida aos jovens, mas sem que estes percam a sua identidade cultural nesse processo. E com um grupo suficientemente grande de pessoas capaz de compreender ambos os mundos, vamos conseguir tomar decisões mais informadas. Isso é extremamente importante para nós, aqui na FSC. É por isso que continuamos a apostar na formação dos jovens, e é por isso que continuamos a procurar melhorar a educação a que os nossos jovens têm acesso.

Mas, ao mesmo tempo, temos de continuar a garantir que os nossos territórios permanecem intactos, que a nossa cultura continua a existir. É verdade que o processo educativo leva muito tempo. Mas a nossa esperança é que, paralelamente a esse processo, vamos conseguir continuar a proteger a nossa floresta, o nosso território, a nossa cultura. Assim, os jovens que passam pelo sistema educativo, que aprendem sobre ambos os mundos, vão ter algo para cuidar e proteger no futuro.

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Crédito: Fundación Sobrevivencia Cofán

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